Politólogo e apoiante do PSD diz que o Partido Socialista está muito longe de reunir as condições para governar sem maioria absoluta
PS: a governabilidade já não mora aqui
Com uma única palavra, José Sócrates definiu a sua estratégia eleitoral logo ao conceder a derrota do PS na noite das europeias. Ao referir-se às legislativas como o momento adequado, não para os portugueses avaliarem a governação, mas para se pronunciarem sobre a governabilidade do País, o Primeiro-Ministro deixou claro que não aposta no balanço do Governo para assegurar a reeleição. Pelo contrário, a estratégia que esquissou nesse discurso consiste em levar os eleitores a votar PS como forma de esconjurar a instabilidade governativa, mesmo quando descontentes com a actual maioria.
Reconheça-se que o panorama político herdado das europeias é um verdadeiro quebra-cabeças. Projectando o resultado das europeias nas legislativas, o PSD ficaria aquém de formar uma maioria parlamentar com o CDS. Mas à esquerda, o PS teria de se juntar ao Bloco de Esquerda e à CDU para chegar a uma maioria. Com o Bloco Central fora de causa, há razões bastantes para temer pela governabilidade do País. Não deixa, no entanto, de ser irónica a ênfase que o PS coloca nesta questão: é que neste contexto, o principal obstáculo à governabilidade do País é justamente o próprio Partido Socialista.
Ao entrar para uma reuniáo da direcção do PS, José Sócrates pediu uma “maioria parlamentar que dê condições para governar”. Ouvido o partido, esclareceu que “a maioria parlamentar é uma maioria absoluta (…) que permita governar sozinho”. Esta insistência na governação solitária revela um Partido Socialista em estado de negação: se há coisa que ficou clara com os resultados das europeias é que a maioria absoluta já não está ao alcance do PS. A questão que se colocará na eventualidade de o PS ganhar as eleições não é se pode governar sozinho. É se tem condições para governar de todo.
Ora o PS está muito longe de reunir as condições para governar sem maioria absoluta. Desde logo porque não há outro partido disponível para apoiar um governo encabeçado por um José Sócrates em declínio. Se dúvidas houvesse, a moção de censura do CDS tê-las-ia dissipado por completo. O insólito cenário da saída de Sócrates após uma vitória nas legislativas também não facilitaria coligações: um entendimento à direita seria vivido como uma traição pela ala mais à esquerda; mas um entendimento com o Bloco de Esquerda ou a CDU constituiria uma ruptura com a orientação que o PS assumiu desde 1975. Também um governo minoritário constituído pelo mesmo partido que sistematicamente dispensou as oposições enquanto maioria – e liderado pelos mesmos dirigentes que afrontaram claramente o Presidente da República em vários dossiers – dificilmente teria condições para navegar nas águas tormentosas de uma crise cujo fim não se vislumbra.
Com José Sócrates, o PS evoluiu de partido-âncora da esquerda para partido-charneira entre uma esquerda radical em forte crescimento e um centro-direita de regresso ao seu nível eleitoral habitual. Essa mutação tornou possível o PS dominador de 2005, mas originou um desenraizamento eleitoral que se está a reflectir, já em 2009, numa considerável quebra do apoio popular aos socialistas. A posição de charneira teve também o efeito de transportar para dentro do partido as grandes clivagens do sistema político português, elevando em muito os riscos de cisão. O centro do sistema partidário português encontra-se portanto ocupado por um partido eleitoralmente enfraquecido, politicamente dividido e organicamente instável. Se porventura ele vier a ser de novo o partido mais votado, iniciar-se-á o ciclo político mais turbulento que Portugal conheceu desde a década de 70. Definitivamente, a governabilidade já não é atributo que o PS possa reivindicar para si.
in Expresso, 27 de Junho de 2009.
sobre o autor
Vasco Campilho tem 32 anos e vive em Lisboa. É militante do PSD e membro da Plataforma Construir Ideias. Participou nos blogs O futuro é agora, Atlântico, Eleições 2009 (Público), Câmara de Comuns e Papa MyZena. Actualmente, escreve no 31 da Armada e no Aparelho de Estado (Expresso).





{ 2 comments }
Parabéns pela análise!
RT @vascocampilho: Leiam lá e digam se não é isto que está a acontecer. http://vascocampilho.net/31daarmada/o-expresso-no-31/
Comments on this entry are closed.