(…) a presente complacência com os sucessivos sinais exteriores de autoritarismo representa uma perda de sensibilidade democrática, mais: é um memorando de modo como os princípios democráticos dos governados tantas vezes têm capitulado perante as circunstâncias.
Bruno Sena Martins, no Arrastão.
Estou – não estamos todos? – cada vez mais desgostoso com a política em Portugal. Mas não me posso esquecer – nenhum de nós pode – que a política não é isto. Não é apenas isto. Não é nem pode ser apenas o que vemos quando observamos o que se vai passando no Governo e nos partidos: a luta pura e dura, sem objectivos nem propósitos que não os que melhor parecem servir a cada momento a conquista do poder, a sua conservação, e a exploração privada dos seus benefícios. Mas também não é nem pode ser aquilo a que a blogosfera muitas vezes a reduz: pura ideia, pura afirmação programática retirada de calhamaços e relambórios escritos por economistas e filósofos mortos.
A política democrática é, tem de ser, bem mais do que isto. Tem de ter luta pelo poder? Tem com certeza. Substrato ideológico? É indispensável. Mas tem de ter também uma ligação forte com a realidade social, tem de ter um propósito concreto a cada instante, tem de saber como quer aplicar o poder pelo qual luta para consubstanciar a orientação programática que a anima. É neste como que se encontra a especificidade do político. Enquanto não soubermos apreciar o que é a especificidade do político, não saberemos escolher lideranças políticas. E a falta que elas têm feito em Portugal.
Quem se habituou a ler este blog sabe que eu não tenho por hábito comentar assuntos internos do PSD, nomeadamente assuntos relacionados com os órgãos a que pertenço – neste caso, a Comissão Política Distrital de Lisboa. Mas queria deixar aqui uma nota de particular apreço por uma decisão que tomámos ontem à noite, que foi a de aprovar por esmagadora maioria o nome da dr.ª Isabel Meirelles como candidata à Câmara Municipal de Oeiras.
Não estarei a violar o sigilo partidário ao admitir que o processo autárquico em Oeiras não foi fácil. O actual Presidente de Câmara foi militante do PSD muitos anos, e a sua candidatura contra o PSD em 2005 deixou feridas difíceis de sarar. No entanto, o PSD em Oeiras nunca se apagou perante o IOMAF, como outros partidos fizeram noutros concelhos em que antigos militantes seus protagonizaram candidaturas vitoriosas. Teve um bom resultado em 2005, e nunca perdeu de vista o objectivo que deve ser o seu: retomar o património político que construiu desde 1986 em Oeiras, e que não pode ser nunca confundido com uma só pessoa.
A escolha da dr.ª Isabel Meirelles para candidata inscreve-se precisamente nesse propósito: oferecer aos oeirenses uma alternativa credível, confiável e renovada a uma liderança que teve as suas virtualidades mas que hoje se encontra esgotada. E essa alternativa não poderia nunca vir de outro lado que não o PSD: o PS apresenta um sucedâneo mal sucedido da gestão de António Costa em Lisboa, um candidato sem quaisquer créditos fora da vida partidária, e sem particular ligação a Oeiras.
O PSD apresenta uma oeirense com horizontes rasgados, uma mulher com uma personalidade vincada e cativante, uma pessoa que soube afirmar-se na sociedade portuguesa pelo seu próprio valor. Por isso mesmo a dr.ª Isabel Meirelles é a candidata certa para iniciar em Oeiras um novo ciclo de desenvolvimento, que consolide a posição liderante do concelho na Área Metropolitana de Lisboa, competindo a nível europeu e mundial com os mais avançados pólos de excelência económica, social e ambiental.
Estou convicto de que hoje, os oeirenses querem virar a página. O PSD tardou, mas soube fazer a escolha que lhes permitirá fazê-lo com segurança e confiança no futuro.
Interessante esta reflexão do Afonso Azevedo Neves sobre o carácter darwinista da ecologia partidária. De facto, na sua dimensão eleitoral os partidos funcionam como filtros de candidaturas: só sobrevivem e progridem na actividade política aqueles que são capazes de passar pelo processo de filtragem. Mas se o processo for demasiado homogeneizador da representação partidária, o que se ganha em coesão perde-se em abrangência e em capacidade de adaptação a novas circunstâncias.
Há aqui outra dimensão que convém ter em atenção, que é a da própria natureza do processo de filtragem. Este pode ser mais cooptativo ou mais negocial, mais centralizado ou mais descentralizado, mais centrípeta ou mais centrífugo. Não se pode dizer que um processo cooptativo seja forçosamente mais homogeneizador que um processo negocial: isso tem ainda a ver com o nível de coesão daquilo a que se chama a coligação dominante dentro do partido. Mas também é evidente que o nível máximo de homogeneidade se atinge em partidos monolíticos que privilegiam processos de cooptação pura, enquanto que o nível máximo de diversidade se atinge em partidos faccionalistas que privilegiam processos de conflito e negociação para escolher os seus candidatos a cargos electivos.
Em Portugal, temos pelo menos um partido que corresponde ao caso extremo de homogeneidade: o PCP. Todos os outros partidos andam em águas mais moderadas neste aspecto. O PSD, em particular, sempre teve uma vida interna de carácter centrífugo, em que de processos de conflito e negociação em geometria variável [continuado…]