Algumas respostas

9 de Fevereiro de 2010 | Portugal

Enquanto mais de 5 000 pessoas se juntavam aos signatários iniciais deste manifesto, outras houve que nos endereçaram críticas mais ou menos suaves. Queria aqui responder, a título individual e em nome próprio, a algumas das mais substanciais – que não fundamentadas, na minha opinião – dessas críticas.

1ª crítica - ah e tal, mas existe liberdade de expressão, logo vocês estão a manifestar-se em vão. Fantástico, Mike. De facto a liberdade de expressão existe em Portugal, e felizmente. Mas existirá apenas enquanto houver quem esteja disposto a defendê-la. Existirá apenas enquanto os cidadãos permanecerem vigilantes face às tentativas de a cercear. Sempre existiram essas tentativas? Possivelmente. Mas quanto mais lhes formos indiferentes, mais aumentará a ousadia controladora do poder. Para o meu gosto, já foi longe demais.

2ª crítica - ah e tal, mas as escutas não deviam ter saído, logo vocês deviam fazer de conta que elas não existem. Esta crítica é mais séria. Não me agrada nada a ideia de que escutas sejam discutidas na praça pública. A discussão jurídica interessa-me pouco, até porque o  estatuto jurídico dos despachos e escutas anexas revelados no Sol não é inequívoco. O que me incomoda aqui é que o sistema judicial português não mereça a nossa confiança no tocante a preservar os elementos atinentes à esfera privada das pessoas investigadas. Mas também me incomoda – e sobremaneira – que o sistema judicial português dê cada vez mais sinais de não merecer que os portugueses confiem na sua independência face ao poder político. Essa suspeição tornou-se muito forte com a divulgação dos despachos do procurador de Aveiro: não há modo de a ignorar. Por isso mesmo, não a ignoro.

3ª crítica - o que vocês querem sei eu, pá. é colocar todo o poder nas mãos do cavaco, é o que é. Agora é que me descobriram a careca. Aquele presidencialismo que há em mim e que eu próprio desconhecia. Só há um problema: é que vivemos num regime em que o Presidente não governa. E mesmo no caso extremo em que o Presidente viesse a exonerar o Governo sem de seguida dissolver a Assembleia da República – cenário que pessoalmente não desejo nem prevejo – não passaria o Presidente a poder governar por causa disso. A sustentação do Governo, no nosso regime, cabe antes de mais à Assembleia da República. O apelo às instituições para que funcionem que eu subscrevi dirige-se tanto ao Parlamento como ao Presidente. Tudo o resto é especulação.

4ª crítica – eh pá não destabilizes, pá. os cds* a subir, a grécia a afundar e vocês praí preocupados com a liberdade, e o camandro. Claro está que a liberdade de informação não é o principal problema de Portugal neste momento. O casamento gay também não era, e no entanto já foi aprovado, e teve direito a festejo na escadaria da AR. A questão não está em saber se este é o maior problema: está em saber se o problema é real. Os indícios de interferência do poder político na comunicação social são fortes. Os sinais de que a justiça não tem as mãos livres para os investigar acumulam-se. Cabe aos cidadãos relembrar às instituições da República os seus deveres, e fiscalizar o seu cumprimento. É o que quero (ajudar a) fazer.

5ª crítica - ah e tal, mas vocês são uns reaças e cheiram mal. Eh pá leva um lenço e aparece lá na quinta.

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* Credit Default Swaps. O partido é outra conversa…

sobre o autor

Vasco Campilho tem 32 anos e vive em Lisboa. É militante do PSD e membro da Plataforma Construir Ideias. Participou nos blogs O futuro é agora, Atlântico, Eleições 2009 (Público), Câmara de Comuns e Papa MyZena. Actualmente, escreve no 31 da Armada e no Aparelho de Estado (Expresso).

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{ 2 comments }

1 Paulo Rebelo 9 de Fevereiro de 2010 , 23:32

Pessoalmente não vejo o problema como ninguém (pelos jeitos)…A mim o que me preocupa é a falta de princípios, era disso que se deveria falar.
OK, até aceito que a justiça não é para ser feita na praça pública…mas se assim não fosse, isto e muitas outras coisas passavam-se sem que se soubesse de nada. Voltamos a Medina Carreira, exemplo, verdade, é o que faz falta a este país. Assim não vamos lá, o primeiro ministro já se viu que é um biltre…e os partidos da oposição acompanham-no, por razões contrárias, mas com o mesmo objectivo…chegar ao poder, arrecadar votos, tudo fazer para agradar aos bananas desta república.
A justiça caiu nas ruas da amargura; coitada da pessoa de bem que caia nas suas malhas. A justiça é igual para todos? pura mentira, grande ilusão! A justiça tirou a venda, a balança pende sempre para o lado onde colocaram dinheiro e poder e a espada corta sempre no outro prato. Como dizia o anterior procurador “…julgar o Sr. C. Cruz, não é a mesma coisa que julgar o Sr. Farfalha…” só quem anda cego não viu isso. Hoje em dia os patifes são inocentados, não por serem inocentes, mas por dislates, erros técnicos, poder económico, dilações temporais que levam a que muitos processos nunca cheguem à barra dos tribunais; mas tão mau como isso é condenar um inocente na praça pública.
……….estou a divagar……voltando ao cerne da questão:
O nosso PR gostaria que não houvesse agitação política nestes momentos de crise…os partidos sem excepção parece que não estão dispostos a fazer-lhe a vontade, mas por outro lado não querem carregar o ónus de derrubar um governo. Pessoalmente penso que não se pode confiar numa pessoa destas para primeiro ministro, ainda menos se pode confiar, numa altura de crise que é preciso enfrentar com garra, para isso são necessários líderes e não pseudo-tiranetes de trazer por casa, mas o pior, o pior mesmo é que nos partidos da oposição não se vislumbra qualquer possibilidade de governo credível, então, eu que penso o que penso do primeiro ministro, acabo a pensar que estamos mal, mas as opções não são melhores…assim, digam as pessoas o que disserem, façam os partidos o que fizerem, não me parece que nada seja para melhorar o estado calamitoso em que nos encontramos. Todos vêem este país como um jogo de interesses, quem é poder não o quer largar porque se está a governar e a governar os amigos, quem não é, quer ser para também se governar.
Pobre país!

2 joaquim 10 de Fevereiro de 2010 , 13:26

Vasco, resposta mais limpinha era impossivel. Não é pobre país mas pobre PM . La estarei

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