Da boçalidade estratégica

13 de Maio de 2009 | Portugal

A título pessoal, agradou-me o vigor com que a blogosfera situacionista® acolheu o PapaMyzena. Há algo de profundamente lisonjeiro no gracejo, no sarcasmo, no insulto, na ofensa, e mesmo no elogio venenoso com que a nossa existência foi brindada.Esta reacção não deixa, no entanto, de ser sintomática de algo mais relevante que o sucesso deste blog: falo do valor estratégico que o poder socrático atribui à boçalidade. Subtilmente instilada a partir do topo, a boçalidade revela-se de forma cada vez mais crua à medida que vamos descendo a hierarquia do poder – nada de novo até aqui, o exemplo vem de cima. O que me parece de certa forma inovador é que este trickle-down boçal se deve mais a uma atitude deliberada do que a características pessoais.
O poder que nos governa alimenta-se do aviltamento da actividade política e do debate público. A estratégia da boçalidade é simples: aviltando a actividade política, afoga-se em ruído as vozes (voice) da oposição, afasta-se (exit) a cidadania do debate público, e força-se os dependentes a uma lealdade (loyalty)* tão mais cega quanto cúmplice da vilania. A sucessão de casos que embaraçam, envergonham e enxovalham as instituições democráticas, longe de serem falhas no mecanismo de reprodução do poder, fazem dele parte integrante. Cada suspeita arquivada, cada documento desaparecido, cada ingerência impune participam desse processo. Ao fim de algum tempo obtém-se uma cidadania apática, uma oposição abúlica e uma base de apoio acrítica: não foi bem para isto que se fez o 25 de Abril.
Também na blogosfera a boçalidade estratégica se tem espalhado pelas hostes socráticas à velocidade da gripe mexicana numa pocilga. Nota-se pelo carinho com que são promovidas pessoas cujo comportamento aconselharia acompanhamento psiquiátrico – desde que sirvam o propósito de transformar o debate político numa central de compostagem. Nota-se igualmente na forma como os “espaços de debate democrático” da blogosfera são tomados de assalto por megafones do poder, apostados em infernizar todos os que não se contentarem com o papel de caução pluralista** da sua dominação. Estes fenómenos blogosféricos têm a importância que têm, ou seja muito pouca. Mas são bem exemplificativos da deriva claustrofóbica e alienante que tem afectado a democracia portuguesa.
E é contra essa deriva que temos a oportunidade de nos pronunciar a 7 de Junho. Haverá melhor forma de o fazer do que votar em quem tão bem a denunciou?
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Exit, Voice, and Loyalty: estes conceitos referenciam a obra de Albert O. Hirschman com o mesmo título.
** Declaração de interesses: saí recentemente de dois espaços que correspondem à descrição. Não tenho vocação para idiota útil.

sobre o autor

Vasco Campilho tem 32 anos e vive em Lisboa. É militante do PSD e membro da Plataforma Construir Ideias. Participou nos blogs O futuro é agora, Atlântico, Eleições 2009 (Público), Câmara de Comuns e Papa MyZena. Actualmente, escreve no 31 da Armada e no Aparelho de Estado (Expresso).

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