Mudar: notas de leitura (2).

28 de Janeiro de 2010 | Portugal

(continuação deste post)

Tal como eu o compreendo, o livro de Passos Coelho tem três objectivos, relativamente independentes entre si. Fulanizando um pouco, eu diria que o livro prossegue um objectivo Medina Carreira (convencer-nos da urgência de mudar); um objectivo anti-Medina Carreira (defender que é ainda possível determinarmos por nós próprios a direcção da mudança); e um objectivo pós-Medina Carreira (apontar um caminho possível de mudança).

O objectivo Medina Carreira é, provavelmente, o mais fácil de se atingir. A maior parte dos portugueses não precisa de pegar no livro de Passos Coelho para saber que “assim não vamos a lado nenhum.” No entanto, quem o fizer provavelmente ficará mais esclarecido sobre “porque é que assim não vamos a lado nenhum”, o que não faz mal a ninguém. É que esse porquê é mais complexo do que parece, e não se resume à estafada querela partidária sobre o pai, o avô e  a catrefada de antepassados do monstro. Passos Coelho mostra que os impasses com que actualmente nos defrontamos – e cujos sintomas mais evidentes são a dívida externa, o défice orçamental e o desemprego – derivam não apenas de opções políticas erradas, mas também de fragilidades ancestrais da sociedade portuguesa, bem como da cada vez maior exigência competitiva de um contexto global em profunda mutação.

O objectivo anti-Medina Carreira (não quero ser injusto com o afamado opinador, mas dar esperança é um pouco o contrário do que ele tem vindo a fazer) é talvez o mais complicado dos três objectivos que acima enumerei. Pedro Passos Coelho tem alguma razão: ainda nos é possível tomar decisões, de forma autónoma, que permitam desbloquear os impasses em que nos encontramos e retomar um rumo de sustentabilidade e desenvolvimento. Mas o tempo voa, e já hoje estamos muito mais condicionados nas nossas opções do que há dez ou quinze anos. Interrogo-me se esta estreita janela de oportunidade que Passos Coelho evidencia não poderá fechar-se antes de tempo, com uma rabanada de vento inesperada. A esse respeito, o  projecto de OE  2010 não me deixa nada descansado. A verdade, porém, é que é infinitamente preferível sermos nós a pôr ordem na nossa casa do que deixar que outros o façam no nosso lugar – se não por razões de dignidade nacional, pelo menos por razões de justiça social. Enquanto não for demonstradamente demasiado tarde, devemos tentar.

Finalmente, o objectivo pós-Medina Carreira. Apontar um caminho de mudança. Aparentemente fácil – o que não falta por aí são soluções, medidas, ideias. Na realidade, bastante complexo. Porque apontar um caminho é muito diferente de apontar um horizonte. Muitos são capazes de idealizar um ponto de chegada, mas poucos são capazes de visualizar os passos a dar para lá chegar, de antecipar as barreiras e as dificuldades, de propôr estratégias para as ultrapassar. É justamente nesse aspecto que Mudar mais se diferencia. Desde logo porque estabelece prioridades de reforma – o tripé despesa pública, políticas sociais e justiça – e sabe definir claramente os nexos de causalidade capazes de criar uma dinâmica virtuosa ou, a contrario, de a paralisar. Mas também porque dá uma atenção particular às modalidades específicas da reforma: a liderança política, a base social de apoio, a implementação sequencial e progressiva das políticas.

(Continua)

sobre o autor

Vasco Campilho tem 32 anos e vive em Lisboa. É militante do PSD e membro da Plataforma Construir Ideias. Participou nos blogs O futuro é agora, Atlântico, Eleições 2009 (Público), Câmara de Comuns e Papa MyZena. Actualmente, escreve no 31 da Armada e no Aparelho de Estado (Expresso).

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{ 3 comments }

1 Nuno Oliveira 31 de Janeiro de 2010 , 17:22

Caro Vasco,

Discordo de si no que toca ao Henrique Medina Carreira. Ele não é pessimista. É realista. Quando ele faz uma análise ao estado do país, não é tanto a realidade económica que nos deve preocupar (que deve de certeza absoluta!) mas a seriedade das pessoas. Eu acredito que há muitos políticos competentes. O que eu não acredito é que haja muitos políticos sérios. Assim como não acredito que haja muitos portugueses sérios. A maioria dos portugueses, se colocados na posição de PM, fariam exactamente o que o Sócrates faz.

Um dos problemas do português, ao mesmo tempo que nos torna muito versáteis, é o (des)enrascanso. Tudo é feito em cima dos joelhos. Não há planeamento. Juntando a isto temos a mentalidade pouco generosa do português. Há um egoísmo latente que impede o verdadeiro avanço civilizacional. Não há qualquer tipo de amor pela pátria. Não há qualquer respeito por aquilo que é de todos e muito menos pelo que é dos outros. Sou pessimista? Não. Realista!

Para que este país chegue a algum lado há que impor um sentimento de respeito pelo próximo. E os políticos deveriam ser o exemplo disso. Concordei com o Marques Mendes quando decidiu por de lado os políticos que poderiam não parecer sérios. E a provar que tenho razão é Majores & Lda. que foram eleitos. O português gosta do corrupto. Gostaria de ser igual na possibilidade de o ser. É preguiçoso e fará tudo o que estiver ao seu alcance para ter dinheiro – legal ou ilegal.

Mudar. A mentalidade. É o que é preciso. Seriedade. Respeito. Civismo. O resto vem atrás. Não temos tempo para esperar? Faça-se ao mesmo tempo. Mas faça-se. Não adianta adiar a educação porque vai levar muitos anos. Não adianta adiar a mudança da constituição para se poder despedir os funcionários públicos a mais e com 25% de índice de produtividade (mesmo assim, maior do que a maioria dos políticos). Os políticos que dêem o exemplo.

Porque é que o Cavaco Silva não propôe uma baixa do seu salário? Deve ter poupanças suficientes para ter um ano de salário 0. Qual PM não se sentiria vexado se não seguisse esse exemplo? E os portugueses acreditariam em algo para além da demagogia destes políticos todos.

Mudar? Não basta mudar as moscas…

2 Paulo Rebelo 1 de Fevereiro de 2010 , 9:30

Concordo plenamente com Nuno Oliveira. Inclusivamente nas opiniões sobre Medina Carreira; ele pode não transmitir esperança, mas como poderia transmiti-la se as políticas e as soluções vão sendo iguais ano após ano? De outra forma, também poderia dizer que se o “opinador é afamado” é porque há várias pessoas que acreditam nele; e de tudo o que tenho ouvido do “afamado opinador”, ele não diz que não podemos tomar decisões de forma autónoma, ele diz é que quem tem o poder de decisão, tem de tomar decisões sérias que levem à inversão do sentido da economia, e não colocar remendos que apenas vão retardando o fim.
Por outro lado se o “opinador é afamado”, não me parece que tenha “comprado” a fama, haverá sim, gente que acredita no que ele opina, eu pessoalmente sou um deles. A crise é sempre paga pelos mesmos, de cima nunca vem exemplo, verticalidade ou honestidade e de baixo só se procura a forma de arrecadar mais uns subsídios. Falar verdade e ser realista faz falta, e no meu fraco entender este é um país a prazo que já perdeu a sua independência, não por força do tratado de Lisboa ou qualquer constituição europeia, mas graças à incompetência, seguidismo e falta de princípios da maioria dos políticos.

3 Vasco Campilho 1 de Fevereiro de 2010 , 12:18

Caros Nuno e Paulo,

gostaria de dissipar um eventual equívoco que o meu texto possa ter provocado: nada me move contra Medina Carreira, pelo contrário. Considero que tem tido um papel essencial na sociedade portuguesa, que é o de alertar para uma realidade que muitos persistem em negar ou edulcorar. Nesse papel ele é insubstituível. Mas das várias intervenções que dele tenho visto – não li o livro que publicou recentemente, talvez aí seja diferente – Medina Carreira não abandona esse registo de alerta para apontar caminhos de mudança. O que em nada diminui a utilidade das suas denúncias.

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