Confesso que a dada altura, cheguei a ficar preocupado. Virava as páginas e nada. Nem uma para amostra. Mau, pensei. Poderá lá ser…? A página tantas, lá dei com uma discordância. O gozo que me deu rabiscar aquele NÃO ao lado de um parágrafo da página 144, depois de 143 páginas a anotar em concordância. Ali estava a prova, a contrario, que não era o efeito de barricada que me levava a concordar com as ideias de Passos Coelho. Passo a transcrever o parágrafo em causa:
A par destes círculos uninominais, poderá haver um grande círculo nacional, onde concorram listas dos partidos e de grupos de cidadãos. Sublinho este último aspecto, porque sou favorável à abertura a candidaturas de grupos de cidadãos, devidamente registados e apoiados por um número representativo de eleitores.*
A discordância reside nisto: eu não sou nada favorável à abertura das eleições legislativas a candidaturas de grupos de cidadãos, seja através de círculos uninominais ou plurinominais. No meu entender, grupos de cidadãos unidos por um propósito político chamam-se partidos, e vejo mal o que é que a nossa democracia tem a ganhar em permitir que ao lado dos partidos apareçam organizações exactamente com a mesma natureza, mas não sujeitas às mesmas regras e obrigações que vinculam as organizações partidárias. A experiência foi feita a nível local e os resultados não têm sido nada animadores. Queremos mesmo transportá-la para o Parlamento?
Exposta a seminal divergência – com a ressalva que ainda tenho mais algumas em carteira – falemos do livro. Passos Coelho adoptou uma estrutura aparentemente clássica, partindo do geral (a política) para o particular (as políticas). Subverteu-a, no entanto, ao entrelaçar intimamente a reflexão inicial que faz sobre a política com a sua própria experiência pessoal, de tal modo que é a parte mais geral do livro que parece ao leitor mais concreta, e a parte mais particularizante que resulta mais abstracta. Foi talvez essa escolha que levou alguns a referir-se a este livro como uma autobiografia. Mas se esta obra tem uma dimensão autobiográfica – que não se restringe à participação cívica – esta encontra-se claramente limitada aos elementos que Passos Coelho considera relevantes para que o leitor possa compreender como se formou a sua visão da política e de Portugal.
A parte mais equilibrada, mais sólida, mais bem conseguida do livro acaba por ser aquela que faz o cruzamento entre geral e particular, entre abstracto e concreto – é aí que Passos Coelho não apenas nos revela o seu diagnóstico da situação portuguesa como esquissa as grandes orientações das respostas que propõe, antes de as desenvolver numa terceira parte dedicada à abordagem de políticas sectoriais. Esta última parte não escapa ao risco – porventura inevitável – de se assemelhar a um catálogo de medidas. Mas os desenvolvimentos anteriores garantem que o leitor nunca perde a visão de conjunto em que as propostas se inserem.
(Continua)
sobre o autor
Vasco Campilho tem 32 anos e vive em Lisboa. É militante do PSD e membro da Plataforma Construir Ideias. Participou nos blogs O futuro é agora, Atlântico, Eleições 2009 (Público), Câmara de Comuns e Papa MyZena. Actualmente, escreve no 31 da Armada e no Aparelho de Estado (Expresso).






{ 1 comment }
Nem concordo, nem discordo! Passando os olhos pela conversa, parece lógica, no entanto a lógica perde-se quando se pensa que os eleitores, a maioria dos eleitores já não se revê nos partidos andando ainda alguns dos que seguem as elites partidárias à procura da sua cota parte de “tacho”; a partir daí poder-se-ia extrapolar que então a solução seria os tais círculos uninominais com a possibilidade de eleição de grupos de cidadãos; só que isso é realmente o que são os partidos, como diz o autor. Assim, tudo ficaria na mesma.
No meu fraco entender, entender de quem não tem nem nunca terá nada a ver com a trafulhulice em que se transformou a política, entender de quem não come nem nunca comerá da gamela de nenhum poder ou partido, o que o País precisa é de EXEMPLO, HONESTIDADE, VERTICALIDADE, PRINCÍPIOS. O que o País precisa é do fim do seguidismo, do fim do politicamente correcto, do fim da subsidio-dependência, do fim da Bandalheira. O que o País precisa é de liderança, justiça, educação.
Nada disto virá dos actuais políticos, nada disto se encontra em nenhum partido e pouco disto se encontra em cidadãos isolados ou em grupo. Portanto quer seja com partidos ou com círculos uninominais, quer seja com políticos carreiristas ou com grupos de cidadãos, este País está irremediavelmente condenado, pois o que realmente faz falta só existe num pequeno grupo de cidadãos que, por não apresentarem soluções fáceis e milagrosas, não agradam à maioria.
O PAÍS DE D. AFONSO HENRIQUES, É HOJE EM DIA UM PAÍS A PRAZO.
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