O garfo em que o PS foi apanhado

1 de Dezembro de 2008 | Destaque,Portugal

Na sua crónica de ontem, Jorge Fiel descreve o garfo em que Sócrates foi apanhado na gestão do conflito entre Governo e professores. Mas o que é um garfo? Segundo Jorge Fiel,

No xadrez, diz-se que ocorre um garfo quando um dos jogadores consegue colocar uma das suas peças a ameaçar duas peças do adversário. Nesta situação, como só pode livrar de perigo uma das suas peças, o adversário é obrigado a sacrificar a outra.

Mas não foi só Sócrates que foi apanhado num garfo: foi o PS inteirinho que se engarfou nos últimos anos. Após uma maioria absoluta conquistada por liquefacção do adversário,  a ganância subiu à cabeça dos estrategas do PS, cuja  obsessão tem sido a  perenização da hegemonia parlamentar. Para cativar o eleitorado central, encenaram uma imitação do estilo decidido e fazedor de Cavaco Silva primeiro-ministro, enquanto que para segurar o eleitorado à esquerda seguiram uma política de recauchutagem das estruturas menos sustentáveis do Estado Social.

Apesar de hoje o PS ainda parecer estar “na mó de cima”, o fim do ciclo de poder socialista já está traçado. É que nem o eleitorado central se deixa impressionar por estilos quando não há resultados, nem o eleitorado mais à esquerda é sensível aos esforços de manter à tona de água o Estado Social quando estes não são  acompanhados pela correspondente retórica revolucionária. A estratégia socialista aplicou a retórica ao centro e a substância à esquerda: acabou por enferrar o Partido num garfo entre uma esquerda que lhe escapa e um centro que não consegue reter indefinidamente.

Esse erro já está a ser pago pela subida das perspectivas eleitorais de PCP e BE, que há vários meses roçam em conjunto os 20%. Mas o seu preço ao centro ainda não foi cobrado, mercê da instabilidade e falta de consistência do PSD enquanto alternativa de Governo. Quem conhece o comportamento eleitoral dos portugueses sabe, no entanto, que o eleitorado central é capaz de grandes flutuações. Não é difícil prever que também ao centro haverá uma factura elevada para o PS, que será posta a pagamento assim que aconteça uma de duas coisas: 1) a falta de resultados da governação PS se torne intolerável aos olhos da classe média, e/ou 2) o PSD apresente uma orientação política alternativa consistente.

Claro que ainda não é possível dizer quando isso acontecerá. Pode ser já em 2009. Pode ser na eleição legislativa seguinte. Mas vai acontecer. A não ser que alguém tenha muita coragem e proponha uma estratégia alternativa no próximo Congresso do PS. Mas isso, muito provavelmente, não acontecerá.

sobre o autor

Vasco Campilho tem 32 anos e vive em Lisboa. É militante do PSD e membro da Plataforma Construir Ideias. Participou nos blogs O futuro é agora, Atlântico, Eleições 2009 (Público), Câmara de Comuns e Papa MyZena. Actualmente, escreve no 31 da Armada e no Aparelho de Estado (Expresso).

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{ 3 comments }

1 Ana Silva Fernandes 2 de Dezembro de 2008 , 11:43

Vasco
Para já, os meus parabéns pelo novo look.
Só posso dizer isto: é um alívio ver alguém desmontar a ficção generalizada. E a revelar a mediocridade aparentemente tolerada. Concordo que as intenções de voto das sondagens são uma ilusão a que o PS se agarra. Mas é melhor assim por enquanto: evita-se um aumento de agressividade do actual poder em exercício. O que me dói é a imaturidade de alguns laranjinhas ávidos de visibilidade e poder. Não tinham aceite as regras do jogo, os resultado nas Directas? Bem basta o jornalismo caseiro dar tempo de antena a “entertainers”, como diz… Espero continuar a acompanhar os seus posts através do “newsletter”. Já tinha saudades de vozes que “restauram” um pouco da minha “orfandade política” (refiro-me a Sá Carneiro).
Cumprimentos
Ana

2 Vasco Campilho 2 de Dezembro de 2008 , 21:42

Ana,

obrigado pelo incentivo! Um abraço e volte sempre,

Vasco

3 Miguel 6 de Dezembro de 2008 , 12:43

Subscrevo o que aqui disse.
De facto, o PS tem um grande dilema em mãos, aquando as proximas eleições legislativas; é mais que certo que não irá conseguir obter a maioria absoluta, e que a grande vencedora das proximas eleições será a abstenção.
É pena que haja tanta falta de maturidade politica e civica no nosso pais, entre os principais lideres, o PS a ganhar com maioria relativa será obrigado ou a procurar consensos com o bloco (nem vale a pena incluir o PC no seu estado actual) ou com o PSD o que será possivelmente desastroso, e como sempre quem paga a factura sao os portugueses, não existe de nenhuma das partes vontade nem coragem de fazer cedencias.

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