O mal e a caramunha

3 de Novembro de 2009 | PSD

Que banzé por aí vai em torno das querelas internas do PSD. Ai o saco de gatos, meu Deus a balcanização, que horror todos à chapada, Virgem Santa que aquela gente não se entende. Batatas: tudo isso não passa de o PSD no seu melhor, nas imorredoiras palavras de Manuela Ferreira Leite. Quando se abre um processo sucessório – e os portugueses abriram-no com o seu voto a 27 de Setembro passado – é natural que a disputa do poder se processe com vivacidade. Só quem não assistiu à luta surda – e às vezes nem tanto – entre Sarkozy e Villepin nos últimos anos da presidência Chirac é que pode pensar que o PSD é um caso de excepcional conflitualidade interna num partido de poder.

O que me preocupa no PSD não é o confronto político em si: é constatar que há um grupo de pessoas que age como se as regras do leal confronto democrático não lhes fossem aplicáveis. Excluem quem não lhes é afecto, mas estão muito preocupados com a unidade do partido. Não olham a meios – nem a media – para desqualificar os adversários, mas são os maiores defensores da disciplina partidária. Recrutam comentadores para insultar quem se lhes opõe, mas ofuscam-se com qualquer crítica que se lhes faça.

Ultimamente esse grupo tem estado no poder, mas não esqueçamos o que ele fez quando o poder lhe foi arredio. Derrubou Santana Lopes. Menorizou Marques Mendes. Entrou em guerra com Luís Filipe Menezes. Sem que a vontade expressa pelos militantes do Partido lhes merecesse o mínimo respeito. Na realidade, comportam-se como se o partido fossem eles, e usam o seu estatuto social e comunicacional para submeter o PSD a uma inaceitável chantagem: ou o Partido alinha com a sua estratégia, ou eles afundam o Partido.

Há quem receie a ruptura entre esse grupo, muito impropriamente apelidado de “elites”, e a massa do partido. Pessoalmente não desejo rupturas, mas também não as temo: da última vez que o PSD perdeu a paciência com as suas auto-proclamadas “elites”, em 1978, mais de metade do grupo parlamentar saiu em oposição a Francisco Sá Carneiro. No ano seguinte a AD foi vitoriosa. Uma lição a reter para quem acha que pode continuar a fazer o mal e a caramunha.

sobre o autor

Vasco Campilho tem 32 anos e vive em Lisboa. É militante do PSD e membro da Plataforma Construir Ideias. Participou nos blogs O futuro é agora, Atlântico, Eleições 2009 (Público), Câmara de Comuns e Papa MyZena. Actualmente, escreve no 31 da Armada e no Aparelho de Estado (Expresso).

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{ 1 trackback }

Gostava de ter sido eu escrever
4 de Novembro de 2009 às 1:28

{ 17 comments }

1 food-i-do 3 de Novembro de 2009 , 17:45

Isto? http://bit.ly/1iIoo5 hummmRT: @vascocampilho: Acabei de escrever um post assim para o puxadote :)

2 food-i-do 3 de Novembro de 2009 , 18:45

Isto? http://bit.ly/1iIoo5 hummmRT: @vascocampilho: Acabei de escrever um post assim para o puxadote :)

3 Luis Melo 3 de Novembro de 2009 , 19:18

Não olham a meios – nem a media – para desqualificar os adversários, mas são os maiores defensores da disciplina partidária. O que fez PPC nos últimos 12 meses? desancou nas ideias, acções e direcção do PSD. Questionado sobre se para ele era melhor o PSD perder respondeu sempre que não, que MFL tinha o apoio dele e legitimidade, blá, blá, blá.

Sem que a vontade expressa pelos militantes do Partido lhes merecesse o mínimo respeito PSL saiu por livre iniciativa depois das eleições 2005 e LFM saiu de livre vontade porque não aguentou a pressão (?). Os militantes em 2008, votaram em MFL. Isso não merece o mínimo respeito?

usam o seu estatuto social e comunicacional para submeter o PSD a uma inaceitável chantagem: ou o Partido alinha com a sua estratégia, ou eles afundam o Partido O que fez Ângelo Correia e outros apoiantes de PPC nos últimos tempos? AC chegou mesmo a dizer que MFL deveria demitir-se senão o PSD perderia as eleições, blá, blá, blá.

Há quem receie a ruptura entre esse grupo, muito impropriamente apelidado de “elites”, e a massa do partido. Pessoalmente não desejo ruptura A única ruptura que eu não quero, e parece ser essa que quer PPC e os “seus” é a ruptura com o PPD de Sá Carneiro ou o PSD de Cavaco Silva.

E por favor Vasco, não compare PPC a FSC… são completa e totalmente incomparáveis.

4 Vasco Campilho 3 de Novembro de 2009 , 19:27

desancou nas ideias, acções e direcção do PSD. Exemplos concretos, por favor. Com citações, links.

PSL saiu por livre iniciativa depois das eleições. O problema foi a fraternal ajuda que lhe deram antes. Quer exemplos?

LFM saiu de livre vontade porque não aguentou a pressão. E quem fez a pressão? Quer links para membros da actual direcção nacional a pressionar LFM para se demitir?

AC chegou mesmo a dizer que MFL deveria demitir-se senão o PSD perderia as eleições. Link, por favor. Já agora, o PSD perdeu mesmo as eleições.

não compare PPC a FSC… E não comparo. Mas comparo as nossas auto-proclamadas “elites” aos inadiáveis. Têm os mesmos comportamentos.

5 Luis Melo 3 de Novembro de 2009 , 20:44

Caro Vasco,

Penso que o Vasco não andou a dormir nestes últimos anos, e por isso sabe bem do que falo quando digo que PPC esteve sempre contra o actual PSD no último ano. Isso é publico e indesmentível. Portanto não me venha com links ou citações. Terá feito isso de propósito sabendo que não me darei a esse trabalho (de procurar, etc) e portanto poderá dizer “pois, lá está, atiram para o ar”.

Quanto à ajuda que deram a PSL, concordo plenamente consigo. Fui dos poucos que estiveram com ele (tive a oportunidade de jantar com o próprio na noite de sábado do congresso de Barcelos). E diga-me o que fizeram “esses” a PSL não foi o mesmo que fez PPC a MFL?

Quanto a LFM, não quero links nenhuns, lá está você com os links (Começo a pensar que você é como o Pôncio Monteiro e o seu “arquivo”). Mas se fala em pressões para demitir presidentes do PSD fique com este (que pediu) em que Ângelo Correia pede a demissão de MFL: http://www.publico.clix.pt/Pol%C3%ADtica/angelo-correia-defende-saida-imediata-de-ferreira-leite-da-lideranca-do-psd_1365089

6 Vasco Campilho 3 de Novembro de 2009 , 23:54

Caro Luís,

justamente porque diz que sabe bem do que fala, penso que não deverá ter dificuldade em sustentar a afirmação de que Pedro Passos Coelho desancou nas ideias, acções e direcção do PSD, ou mesmo de que esteve sempre contra o actual PSD no último ano. Pela minha parte, estou convicto do contrário: Pedro Passos Coelho, desde as directas, demonstrou sempre disponibilidade para colaborar e lealdade ao partido, afirmando as suas ideias mas sem nunca afrontar a direcção ou sequer condicionar a sua actuação. Estou aberto a ser convencido do contrário, mas é preciso mais do que a simples afirmação de que é público e indesmentível.

Quanto à minagem que foi feita a PSL e a LFM (já para não falar de LMM) nada teve a ver com o procedimento sempre liso, aberto e transparente que norteou a afirmação política de Passos Coelho como alternativa para o futuro do PSD.

Finalmente, quanto às afirmações do Ângelo Correia, agradeço-lhe ter-me refrescado a memória. Recordo-me bem delas, e na altura não me agradaram particularmente. Há no entanto que contextualizar: essa era a época em que Alberto João Jardim dava até ao 1º trimestre para avaliar da continuidade da direcção, e em que constava que LFM tinha já as assinaturas para convocar um Congresso extraordinário. E Pedro Passos Coelho nada disse e nada fez que pudesse ajudar a essa festa. Até Ângelo Correia, sem deixar de fazer uma apreciação negativa sobre a liderança – apreciação que partilho, e a que o tempo veio dar razão – não deixou de lhe reconhecer plena legitimidade para prosseguir se assim o entendesse.

7 Rodrigo Gonçalves 4 de Novembro de 2009 , 5:55

Um optima e fiel visão do estado do PSD actual. Concordo plenamente Vasco. Aliás, já é tempo de, provvavelmente, dar inicio a uma ruptura (em termos idênticos aos de 1978), para que surgir uma renovação efectiva por que tanto espero. Na qualidade de dirigente Social Democrata, não me revejo, minimamente, na actual liderança, nem tão pouco nas possíveis (pseudo) lideranças futuras apoiadas (em forma de ondas) pelas “ditas” elites. Mas tal como eu, tambem a grande maioria dos militantes de base estão insatisfeitos, portanto não entendo como se decide um futuro de um partido sem contar com aqueles que o compõem. Eu defendo um partido “INTER-CLASSISTA”, onde todos se sentem representados. Um partido que defende uma classe média que representa cerca de 70% da produção nacional. Defendo um Estado regulador (exigente claro). Eu defendo um Partido com ideias de futuro e que vê na sua renovação uma regeneração natural de quem pretende sempre evoluir e acompanhar os tempos. Sou e defendo a Social democracia, ao contrário de outros que defendem um partido de elites e com lógicas de bloco central que visam apenas perpetuar a influência e o poder dos “senhores (as)” de sempre. Disse…

8 Luis Melo 4 de Novembro de 2009 , 11:08

Vasco,

Estou a ver que para si, as críticas de PPC ou AC (que a seu ver não estão ligados nesta questão partidária ??!!) à actual direcção foram e são legítimas. Além disso foram todas proferidas tendo em conta o bem do partido e não os seus interesses pessoais.

Já as críticas de outros às direcções de PSL, LFM ou LMM foram uma vergonha. Tinham por objectivo apenas “deitar abaixo” quem lá estava para que se abrisse oportunidade para eles lhe tomarem o lugar. Todas as críticas tinham como razão interesses pessoais e corporativos.

O que o leva a ter dois pesos e duas medidas?

9 Vasco Campilho 4 de Novembro de 2009 , 11:37

Luís, entendamo-nos: a crítica política é livre em democracia, e não me verá nunca censurar ninguém por criticar, com urbanidade, as orientações ou as acções de uma qualquer direcção do Partido. Também não entro em processos de intenção nessa matéria: pouco me interessa se a crítica é desinteressada ou não, interessa-me mais a sua pertinência intrínseca.
Aquilo que eu censuro na forma como foram tratadas anteriores direcções são actos e são agressões verbais, muitas vezes com carácter pessoal, que vão muito para além do campo da crítica política. Não perceber a diferença entre estas situações, isso sim é ter dois pesos e duas medidas.

10 Luis Melo 4 de Novembro de 2009 , 13:27

pouco me interessa se a crítica é desinteressada ou não, interessa-me mais a sua pertinência intrínseca.

Pois a mim interessa-me e muito quando as críticas são feitas, não de uma forma construtiva, mas de uma forma destrutiva (e têm por trás interesses pessoais e corporativos).

são actos e são agressões verbais, muitas vezes com carácter pessoal, que vão muito para além do campo da crítica política

Concordamos. Mas esse tipo de agressões verbais vêm dos dois lados.

11 Vasco Campilho 4 de Novembro de 2009 , 16:11

as críticas são feitas, não de uma forma construtiva, mas de uma forma destrutiva (e têm por trás interesses pessoais e corporativos). Tem exemplos para suportar o que diz, ou isto não passa de uma insinuação?

esse tipo de agressões verbais vêm dos dois lados. Tem algum exemplo de agressão verbal proferida por Pedro Passos Coelho, ou isto é apenas uma profissão de fé?

12 Ricardo Cataluna 4 de Novembro de 2009 , 20:04

Subscrevo!

13 Orquidea louro 5 de Novembro de 2009 , 3:11

Uma vergonha é defender-se pessoas que não tem defesa, como MFL, e os seus amigos. O partido para eles pouco importa ou nada, mas os seus interesses pessoais, estão acima de tudo. É bom recordar, que nos momentos próprios, o voto, tem igual valor, seja de um barão ou de um militante de base, ou mesmo de um simples simpatizante…e os resultados estão á vista.

14 Maria Teresa Goulão 5 de Novembro de 2009 , 5:33

Li no Blog http://memoriarecenteeantiga.blogspot.com/, este texto de Guerra Junqueiro (1850 – 1923), que aqui reproduzo ( fazendo justiça ao Blog memoria recente e antiga), e que revela tudo:

“Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio,
fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora,
aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias,
sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice,
pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;
um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom,
e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que
um lampejo misterioso da alma nacional,
reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,
não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha,
sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima,
descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação,
da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador; e este, finalmente,
tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política,
torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções,
incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos,
iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero,
e não se malgando e fundindo, apesar disso,
pela razão que alguém deu no parlamento,
de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.”
.
Guerra Junqueiro, 1896

15 Luis Melo 5 de Novembro de 2009 , 10:09

Vasco, lá está você a utilizar essa arma dos exemplos e dos links. Sabe perfeitamente do que falo mas faz-se desentendido. E depois vem com o tal truque do “ah e tal, não tem provas, são insinuações”. Não seja assim. Conhece tão bem como eu casos de critica destrutiva e de insulto vindos de todas as facções do PSD. Infelizmente.

A propósito deste assunto, aconselho a leitura do Gonçalo Capitão: http://lodonocais.blogspot.com/2009/11/se-entendia-ha-algum-tempo-que-o-psd.html

16 Vasco Campilho 5 de Novembro de 2009 , 11:33

Pois é Luís. Que chatice, ter de se justificar o que se diz. É tão mais prático brincar aos Octávios Machados.

17 Lurdes Rodrigues 10 de Novembro de 2009 , 17:23

Engraçada, esta discussão simpatica entre, o Vasco e o Lúis.
Lamento, mas vou dar nenhum contributo util, ao seguimento da vossa interessante visão, em particular na defesa do PPC.

Saltou-me à vista, no decorrer do vosso debate, mais a dois, um interveniente que disse:
“não entendo como se decide um futuro de um partido sem contar com aqueles que o compõem. ”
e acrescenta “Eu defendo um Partido com ideias de futuro e que vê na sua renovação uma regeneração natural de quem pretende sempre evoluir e acompanhar os tempos.”

1) Curiosamente, em Lisboa, um conjunto de dirigentes anulou as escolhas de um presidente de junta, e provavelmente como em outros locais do País, fez a lista com amigos e pessoas que nunca participaram na vida publica civica activa.
2) As ideias de futuro, em Lisboa, foram exemplicadas, vergonhosamente por membros do PSD, que à traição agrediram um Presidente de Junta, um senhor de 71 anos
3) A regeneração natural, julgo, não será à força. Será pelo livre debate e troca democratica de ideias.

Finalizo com outra intervenção abaixo.
Se a cultura e pessoas de bom senso, não saem valorizadas do PSD seguimos para isto.
“O partido para eles pouco importa ou nada, mas os seus interesses pessoais, estão acima de tudo. “

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