Ao apreender os livros que ostentavam a “Origem do Mundo” de Courbet, a PSP deu um testemunho da capacidade que a arte tem de nos interpelar através dos séculos. A pintura de Courbet é transgressiva na sua imediatez, inquietante na sua brutalidade, chocante na sua desfaçatez – merece de pleno direito a qualificação de pornográfica. Negar-lhe essa dimensão, como o fazem os críticos da PSP, não é mais do que emascular a “Origem do Mundo” do seu verdadeiro significado artístico. Porque é na rejeição primal que ela provoca que se encontra o seu significado profundo: o evidenciar de um bio-poder refractário à representação i-cónica.
A apreensão de ontem, mais do que acto censório, é uma performance artística em si mesma. No seu implacável legalismo, o gesto policial re-actualizou a afirmação estética de um quadro que nunca se quis respeitosamente admirado, e muito menos banalizado em reproduções displicentemente espalhadas por bancas de livreiros. E isso, caro leitor, é serviço público.
sobre o autor
Vasco Campilho tem 32 anos e vive em Lisboa. É militante do PSD e membro da Plataforma Construir Ideias. Participou nos blogs O futuro é agora, Atlântico, Eleições 2009 (Público), Câmara de Comuns e Papa MyZena. Actualmente, escreve no 31 da Armada e no Aparelho de Estado (Expresso).






{ 3 comments }
Bem visto, se bem que a eficácia da propaganda cultural através da imbecilidade não torne o acto de estúpida censura menos imbecil, nem menos estúpido nem, é claro, menos censório.
Vasco, gostei desta sua perspectiva abrangente da arte omo um todo, incluindo as reacções que provoca. Chamar à iniciativa da PSP “performance artística”… Não há dúvida que anda inspirado…
“Rejeição primal”? Deves ser panisgas…
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