Um homem também chora.

20 de Novembro de 2009 | Pessoal, Sociedade

Há coisa de um mês e pico instalei finalmente a têvê por cabo em casa. Têvê por cabo que não é bem por cabo, ou por outra, é por cabo mas não co-axial, é cabo telefónico, mas não de fibra, portanto, ADSL, triple-play e tal, comprende? A minha motivação básica era poder atender o telefone de algum amigo politiqueiro e deixar de responder “não, não vi o Pacheco na quadratura, não tenho SIC-Notícias” (podeis trocar Pacheco por Marques Lopes, quadratura por eixo, e SIC-Notícias por SIC-Notícias). Apesar das avançadas capacidades suspensórias e grabatórias da box, ainda não tive oportunidade para ver esses programas. Aquilo dá muito tarde, e a essas horas eu prefiro ir ao Bairro com uma diva do twitter, ou estar no twitter a trocar espirituosidades com as estrelas da blogosfera.  Mas agora ao menos já posso dizer “não costumo ver a quadratura” (podeis trocar quadratura por eixo) com aquele tom de mas-eu-tenho-cara-de-quem-liga-a-essas-coisas, em vez de me confessar confinado à pobreza hertziana.

Mesmo assim, a têvê deixou de ser o objecto inanimado que tinha na sala desde que a desliguei da antena interior e a liguei à parede. Ontem, por exemplo, antes de dar um salto ao Bairro no horário da quadratura ainda deu tempo para ver um episódio de uma série que não conhecia – a Flashpoint. Pelo que percebi, é a história de uma brigada de intervenção da polícia, que entra em acção quando a coisa mete raptos e reféns e porrada mesmo da grossa. E o que eu me comovi, senhores. O que eu chorei. Não com os estados de alma dos polícias, que também os têm, mas com a história dos criminosos. Um casal de namorados em que a moça tinha a doença de Creutzfeld-Jacob, e que tinha planeado o suicídio dela com morfina depois de uma noite de sonho, com jantar de gala e uns passitos de dança. A coisa metendo uns roubos pelo meio, acabam rodeados de polícias encapuzados a apontar-lhes espingardas em plena festa. Ela a pedir ao namorado que a mate com o cano da Magnum .357 encostado à testa, o sargento a negociar, o drama, a emoção, o muco. Acaba tudo bem, pelo menos tanto quanto possível quando a heroína tem o cérebro a liquefazer-se, vão os dois para a prisa juntos até ela morrer, a lei é dura mas também é humana. Estou aqui a contar isto com um grão de sal para me armar em blasé, mas o que eu me comovi. O que eu chorei. Diz que um homem também chora. Uma coisa é certa: a pieguice piora com a idade.

sobre o autor

Vasco Campilho tem 32 anos e vive em Lisboa. É militante do PSD e membro da Plataforma Construir Ideias. Participou nos blogs O futuro é agora, Atlântico, Eleições 2009 (Público), Câmara de Comuns e Papa MyZena. Actualmente, escreve no 31 da Armada e no Aparelho de Estado (Expresso).

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{ 3 comments }

1 jnogueira 20 de Novembro de 2009 , 13:59

you are the man, mr. :) so true.

2 rodrigo ribeiro 20 de Novembro de 2009 , 15:12

Até que enfim que “alguém” percebeu que a escrita é demasiado importante para ser dedicada só à política! :-)

3 Vasco Campilho 20 de Novembro de 2009 , 16:33

Já percebi a mensagem: vou-me dedicar à literatura :)

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