A sua família está bastante endividada. Boa casa, bom carro, boas férias, mas cada fim do mês é um suplício. É que você e a sua mulher trazem trezentos e cinquenta contos por mês para casa todos os meses, mas somando as despesas todas, gastam perto de quinhentos. Você bem tenta cortar, mas não consegue. Se não fossem aqueles primos emigrantes na Alemanha que todos os meses lhe enviam oitenta contitos, você já estava falido. Assim, está só a caminho da falência.
Nisto, atravessa-se-lhe pela frente uma crise financeira. Como você é vendedor, as suas comissões começam logo a sofrer. A sua mulher, ao fim de uns meses, é despedida. De trezentos e cinquenta contos, o rendimento familiar passa para duzentos e setenta e cinco. Felizmente, os primos da Alemanha não falham nas remessas (mal sabem eles como você as gasta…) Mesmo assim, a coisa está preta. Cortar nas férias tudo bem. Mas… vender o carro? Impossível, como é que você iria trabalhar? Mudar de casa? Com os preços a virem por aí abaixo não compensaria, e nem pensar em pôr a Cristina a dormir no mesmo quarto que o Daniel: matavam-se! Não: é preciso arranjar outra solução.
Nisto, você tem uma ideia luminosa: e que tal construir uma piscina no jardim? [continuado…]
9 de Maio de 2009 | Mundo
Nestas conferências estive particularmente atento à questão dos desequilíbrios gémeos entre Estados Unidos e China: consumo de um lado, poupança e investimento do outro. Estes desequilíbrios, que se têm vindo a aprofundar nos últimos dez a quinze anos, são não apenas uma das origens mais claras da crise financeira que atravessamos, mas também um dos problemas políticos mais candentes à escala global.
Quando perguntei a Robert Hunter e a Shi Yinhong em que base é que os Estados Unidos e a China poderiam chegar a um acordo para resolver estes desequilíbrios, ambos se enredaram em respostas inócuas e bem-intencionadas. Mas a sensibilidade da questão foi revelada pela reacção forte do russo Yegor Gaidar – que identificou a convertibilidade do yuan como o maior desafio em termos de regulação financeira mundial – e pela reacção epidérmica da indiana Rada Khumar, que nem queria ouvir falar de uma relação privilegiada entre Estados Unidos e China.
Mas foi o brasileiro Alfredo Valladão que, a meu ver, melhor perspectivou os potenciais desenvolvimentos desta questão, já no sábado à tarde. A China, cujo modelo de desenvolvimento passa por investimento intensivo e está completamente virado para a exportação, tem que se preparar para uma nova era de proteccionismo soft de base ambiental da parte dos Estados Unidos. Claro que haverá sempre empresas americanas prontas a vender serviços para adaptar a produção chinesa às regras do jogo obamiano. Mas essa adaptação implicará também um aumento do consumo interno, um aumento do rendimento das famílias, e uma diversificação das formas de acesso ao rendimento – cada vez menos controladas pelo Partido. E é esse o grande desafio da liderança chinesa – como entrar nesta nova era sem a acompanhar de uma maior abertura política? E como promover a abertura política sem desencadear convulsões sociais imprevisíveis?
Da resposta da China vai depender muito do que serão as próximas décadas ao nível global.
…o post com o melhor rácio de lucidez por palavra escrito a propósito de política económica em Portugal nos últimos meses.
Se, num cenário puramente hipotético, estivermos perante uma crise que não se sabe quando vai acabar e se a maior parte das grandes economias estiver a seguir políticas keynesianas de estímulo à procura, o que deve fazer o governo de uma pequena economia aberta ao exterior? O governo da pequena economia deve imitar as políticas keyneasianas das grandes economias ou deve seguir uma política orçamental conservadora?
Deve seguir uma política orçamental conservadora. Se as políticas keynesianas funcionarem, então a pequena economia aberta ao exterior também beneficiará das políticas seguidas pelas grandes economias. Como bónus, a pequena economia não precisa de se endividar para pagar políticas keynesianas. Como não se sabe quando é que a crise vai acabar, uma política orçamental conservadora permite à pequena economia alguma margem de manobra no futuro.
Free Riding, por João Miranda. No Portugal Contemporâneo.
Crise, Globalização e Intervencionismo do Estado: Jantar-Debate com Daniel Bessa e João Salgueiro
Em directo a partir das 20h
www.construirideias.pt
Anunciado aqui. Transmitido aqui.

A Plataforma de Reflexão Estratégica Construir Ideias vai debater o tema Crise Económica, Globalização e Intervencionismo do Estado no dia 9 de Dezembro. O evento realiza-se em Lisboa, com o modelo de jantar-debate. O debate será aberto por Pedro Passos Coelho e moderado pelo ex-secretário de Estado do Tesouro e Finanças, António Nogueira Leite. Os oradores convidados são o presidente da Associação Portuguesa de Bancos, João Salgueiro, ex-ministro das Finanças do PSD; e Daniel Bessa, ex-ministro da Economia do Governo de António Guterres e actual presidente da Escola de Gestão do Porto.
Inscreva-se aqui.