Artigos do tema crise

Kebab meets picanha

30 de Julho de 2009 | Sociedade

Ontem cheguei a casa a horas impróprias para consumo. Esfomeado. Ainda dei um salto ali ao frango assado, mas a venerável casa fecha às quartas. Dirigi-me então ao kebab de última instância que fica um pouco mais longe na minha rua. Quem lá estava a atender já não era aquele jovem e simpático paquistanês com o seu português aproximativo, que ainda no Santo António tinha feito uma valente sardinhada para os excedentários da Bica. No seu lugar, uma brasileira que eu já conhecia de ter trabalhado numa mercearia barra frutaria meia-dúzia de portas mais à frente, e que havia desaparecido do bairro há uns dois anos.

Olhe, era um kebab. Ah, mas é que aqui já não é dos indianos. Ah não? Pois, eles foram abrir um restaurante no Intendente, parece que muito bom, e como o dono disto está para Espanha e só tinha aqui este negócio, fez o trespasse. Ah então você é a dona? Sou. Agora aqui tem mais picanha, costela, empada, essas coisas. Também vamos abrir ali nas escadinhas da Bica, um sítio maior, para grupos que aqui não comporta… Muito bem, já não a via há algum tempo desde a mercearia. Pois é, trabalhei ali num café no Chiado e agora conseguimos abrir este negócio… E vamos ter um serviço de entrega ao domicílio e mais isto e mais aquilo…

Quis partilhar este episódio (acabei por levar uma sandes e uma cola zero) porque achei a história desta mulher absolutamente inspiradora. Sei as condições difíceis e os horários pesados da mercearia onde ela trabalhava quando a conheci. Sei das provações por que passam tantos e tantas imigrantes em Portugal, sobretudo com uma crise económica face à qual estão ainda mais desprotegidos que os autóctones. E no entanto, ela conseguiu ultrapassar as dificuldades; montar o seu projecto; e melhorar a sua condição. E com esse esforço está a contribuir para uma rua melhor, para um bairro melhor, para uma cidade melhor, quem sabe para um país melhor. Esta mulher – tenho que lhe perguntar o nome um dia destes – ontem parecia feliz. Parecia que estava finalmente a realizar aquilo que tinha vindo buscar a Portugal. Desejo-lhe toda a sorte do mundo.

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O Expresso no 31

30 de Junho de 2009 | 31 da Armada

Politólogo e apoiante do PSD diz que o Partido Socialista está muito longe de reunir as condições para governar sem maioria absoluta


PS: a governabilidade já não mora aqui


 

Com uma única palavra, José Sócrates definiu a sua estratégia eleitoral logo ao conceder a derrota do PS na noite das europeias. Ao referir-se às legislativas como o momento adequado, não para os portugueses avaliarem a governação, mas para se pronunciarem sobre a governabilidade do País, o Primeiro-Ministro deixou claro que não aposta no balanço do Governo para assegurar a reeleição. Pelo contrário, a  estratégia que esquissou nesse discurso consiste em levar os eleitores a votar PS como forma de esconjurar a instabilidade governativa, mesmo quando descontentes com a actual maioria.

 

Reconheça-se que o panorama político herdado das europeias é um verdadeiro quebra-cabeças. Projectando o resultado das europeias nas legislativas, o PSD ficaria aquém de formar uma maioria parlamentar com o CDS. Mas à esquerda, o PS teria de se juntar ao Bloco de Esquerda e à CDU para chegar a uma maioria. Com o Bloco Central fora de causa, há razões bastantes para temer pela governabilidade do País. Não deixa, no entanto, de ser irónica a ênfase que o PS coloca nesta questão: é que neste contexto, o principal obstáculo à governabilidade do País é justamente o próprio Partido Socialista.

 

Ao entrar para uma reuniáo da direcção do PS, José Sócrates pediu uma “maioria parlamentar que dê condições para governar”. Ouvido o partido, esclareceu que “a maioria parlamentar é uma maioria absoluta (…) que permita governar sozinho”. Esta insistência na governação solitária revela um Partido Socialista em estado de negação: se há coisa que ficou clara com os resultados das europeias é que a maioria absoluta já não está ao alcance do PS. A questão que se colocará na eventualidade de o PS ganhar as eleições não é se pode governar sozinho. É se tem condições para governar de todo.

 

Ora o PS está muito longe de reunir as condições para governar sem maioria absoluta. Desde logo porque não há outro partido disponível para apoiar um governo encabeçado por um José Sócrates em declínio. Se dúvidas houvesse, a moção de censura do CDS tê-las-ia dissipado por completo. O insólito cenário da saída de Sócrates após uma vitória nas legislativas também não facilitaria coligações: um entendimento à direita seria vivido como uma traição pela ala mais à esquerda; mas um entendimento com o Bloco de Esquerda ou a CDU constituiria uma ruptura com a orientação que o PS assumiu desde 1975. Também um governo minoritário constituído pelo mesmo partido que sistematicamente dispensou as oposições enquanto maioria – e liderado pelos mesmos dirigentes que afrontaram claramente o Presidente da República em vários dossiers – dificilmente teria condições para navegar nas águas tormentosas de uma crise cujo fim não se vislumbra.

 

Com José Sócrates, o PS evoluiu de partido-âncora da esquerda para partido-charneira entre uma esquerda radical em forte crescimento e um centro-direita de regresso ao seu nível eleitoral habitual. Essa mutação tornou possível o PS dominador de 2005, mas originou um desenraizamento eleitoral que se está a reflectir, já em 2009, numa considerável quebra do apoio popular aos socialistas. A posição de charneira teve também o efeito de transportar para dentro do partido as grandes clivagens do sistema político português, elevando em muito os riscos de cisão. O centro do sistema partidário português encontra-se portanto ocupado por um partido eleitoralmente enfraquecido, politicamente dividido e organicamente instável. Se porventura ele vier a ser de novo o partido mais votado, iniciar-se-á o ciclo político mais turbulento que Portugal conheceu desde a década de 70. Definitivamente, a governabilidade já não é atributo que o PS possa reivindicar para si.

 

in Expresso, 27 de Junho de 2009.

 

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Se o PSD vier a consolidar a dinâmica de vitória adquirida não há marketing político que valha [aos socialistas]. Agora, como vai o PSD enfrentar a crise económica ? Com que equipa vai governar ? O que vai fazer o PSD na Justiça? Acredita na autonomia do Ministério Público? Aposta no reforço de meios da investigação criminal? Tem boa receita para atacar a justiça cível, comercial, fiscal e administrativa, sectores decisivos para a economia? Baixa impostos? Que soluções tem para a Saúde?

Eduardo Dâmaso, em Quanto vale este PSD? no Correio da Manhã.

As questões que o editorialista coloca são pertinentes, e merecem resposta. Mas note-se que só as coloca seriamente porque acredita que o PSD pode ganhar as legislativas. E acredita que o PSD pode ganhar as legislativas porque o PSD ganhou as europeias. Esta mudança de perspectiva, só a vitória a poderia trazer. Era mesmo preciso ganhar as europeias.

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Conhece este negócio? Não? Então troque pequena empresa por Estado Português, Banco da Cidade por Citigroup e acrescente uns zeros às quantias referidas, e passa a conhecer. Sim, este é o negócio “ruinoso” que Manuela Ferreira Leite executou em 2003. Um negócio que baixou o défice em 2%, garantiu que Portugal não perdesse fundos comunitários, e transformou em dinheiro dívidas que se estavam a arrastar nas Finanças há anos e anos.

E este negócio? Não conhece? Tem a certeza? Então troque família por Portugal, salários por receita fiscal, remessas dos primos por fundos comunitários e piscina por TGV. Vai ver que é um negócio “excepcionalmente” parecido com o que o Governo quer fazer a três meses de eleições.

Conclusão: mais vale ser arruinado por Ferreira Leite do que salvo da crise por Sócrates.

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Um negócio excepcional

14 de Junho de 2009 | Economia

A sua família está bastante endividada. Boa casa, bom carro, boas férias, mas cada fim do mês é um suplício. É que você e a sua mulher trazem trezentos e cinquenta contos por mês para casa todos os meses, mas somando as despesas todas, gastam perto de quinhentos. Você bem tenta cortar, mas não consegue. Se não fossem aqueles primos emigrantes na Alemanha que todos os meses lhe enviam oitenta contitos, você já estava falido. Assim, está só a caminho da falência.


Nisto, atravessa-se-lhe pela frente uma crise financeira. Como você é vendedor, as suas comissões começam logo a sofrer. A sua mulher, ao fim de uns meses, é despedida. De trezentos e cinquenta contos, o rendimento familiar passa para duzentos e setenta e cinco. Felizmente, os primos da Alemanha não falham nas remessas (mal sabem eles como você as gasta…) Mesmo assim, a coisa está preta. Cortar nas férias tudo bem. Mas… vender o carro? Impossível, como é que você iria trabalhar? Mudar de casa? Com os preços a virem por aí abaixo não compensaria, e nem pensar em pôr a Cristina a dormir no mesmo quarto que o Daniel: matavam-se! Não: é preciso arranjar outra solução.


Nisto, você tem uma ideia luminosa: e que tal construir uma piscina no jardim? [continuado…]

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Twin imbalances

9 de Maio de 2009 | Mundo

Nestas conferências estive particularmente atento à questão dos desequilíbrios gémeos entre Estados Unidos e China: consumo de um lado, poupança e investimento do outro. Estes desequilíbrios, que se têm vindo a aprofundar nos últimos dez a quinze anos, são não apenas uma das origens mais claras da crise financeira que atravessamos, mas também um dos problemas políticos mais candentes à escala global.

Quando perguntei a Robert Hunter e a Shi Yinhong em que base é que os Estados Unidos e a China poderiam chegar a um acordo para resolver estes desequilíbrios, ambos se enredaram em respostas inócuas e bem-intencionadas. Mas a sensibilidade da questão foi revelada pela reacção forte do russo Yegor Gaidar – que identificou a convertibilidade do yuan como o maior desafio em termos de regulação financeira mundial – e pela reacção epidérmica da indiana Rada Khumar, que nem queria ouvir falar de uma relação privilegiada entre Estados Unidos e China.

Mas foi o brasileiro Alfredo Valladão que, a meu ver, melhor perspectivou os potenciais desenvolvimentos desta questão, já no sábado à tarde. A China, cujo modelo de desenvolvimento passa por investimento intensivo e está completamente virado para a exportação, tem que se preparar para uma nova era de proteccionismo soft de base ambiental da parte dos Estados Unidos. Claro que haverá sempre empresas americanas prontas a vender serviços para adaptar a produção chinesa às regras do jogo obamiano.  Mas essa adaptação implicará também um aumento do consumo interno, um aumento do rendimento das famílias, e uma diversificação das formas de acesso ao rendimento – cada vez menos controladas pelo Partido. E é esse o grande desafio da liderança chinesa – como entrar nesta nova era sem a acompanhar de uma maior abertura política? E como promover a abertura política sem desencadear convulsões sociais imprevisíveis?

Da resposta da China vai depender muito do que serão as próximas décadas ao nível global.

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