Artigos do tema europa

…e porque à boleia deste manifesto a discussão sobre o TGV regressou à praça pública, permitam-me que volte a sintetizar o meu pensamento sobre o assunto. Desta vez em lista numerada, para facilitar a leitura.

  1. Portugal tem interesse em entrar nas redes ferroviárias trans-europeias, prioritariamente por causa do transporte de mercadorias. O modo ferroviário de transporte baixa o custo médio das exportações e diversifica face ao modo rodoviário (sujeito a riscos de congestionamento, riscos de bloqueio, bem como ao risco político da taxação ecológica do atravessamento).
  2. As regiões mais exportadoras do País são simultaneamente as mais próximas da Europa transpirenaica. A ligação às redes transeuropeias deve portanto ser feita prioritariamente a Norte (Porto-Vigo e/ou Aveiro-Salamanca).
  3. Esta ligação não tem necessariamente de ser feita em alta velocidade (300 km/h). A velocidade elevada (200-250 km/h) chega perfeitamente. O que é fundamental é que esteja em bitola europeia, de modo a evitar rupturas de carga gravosas para a competitividade do modo ferroviário.
  4. Existe uma mega-região Lisboa-Corunha, política e economicamente dominada por Portugal. O seu desenvolvimento económico é fundamental para a viabilidade a longo prazo do país. Ora esta mega-região não está servida por uma infra-estrutura ferroviária eficaz: a linha Lisboa-Porto está velha e congestionada, a ligação Porto-Galiza é praticamente inexistente. Faz por isso sentido, quer do ponto de vista geoeconómico quer do ponto de vista geopolítico, investir numa ligação de alta velocidade entre os principais pólos da mega-região ibero-atlântica.
  5. O reforço da integração da mega-região ibero-atlântica deve ser assumido como um objectivo político nacional, e deve determinar a prioridade à ligação Lisboa-Corunha sobre a ligação Lisboa-Madrid, que liga duas mega-regiões diferentes, não assegura a auto-sustentabilidade financeira, e se integra no objectivo nacional espanhol de criar uma rede de transportes ibérica centralizada em Madrid.
  6. Em todo o caso, a situação económica do País no momento presente, nomeadamente o endividamento externo e o desequilíbrio da balança de pagamentos, deve levar a reflectir muitíssimo bem sobre a oportunidade de qualquer um dos investimentos acima referidos. No momento em que houver disponibilidade financeira para avançar com todo ou parte do programa, deve ser tomada em consideração a ordem de prioridades acima esquissada.

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Lose-lose

28 de Abril de 2009 | Política, Portugal

O Partido Socialista decidiu esconder Vital Moreira da sua campanha, e espalhar uma segunda vaga de cartazes em que se intitula o partido da Europa. Em reacção a este gesto
  • os não-europeístas consequentes votarão contra o PS: afinal, ele pretende representar tudo aquilo que eles combatem.
  • os europeístas consequentes votarão contra o PS: afinal, não há nada mais contrário ao espírito europeu do que transformá-lo em bandeira partidária.

Sobram os que se estão marimbando para a Europa. Esses, naturalmente, abster-se-ão.

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Onde está o Vital?

Onde está o Vital?

Os novos outdoors do PS são, sem dúvida, uma jogada inteligente de campanha. Não sei – provavelmente nunca se saberá – se já estavam previstos nestes termos, ou se se tratou de uma reacção ao verdadeiro descalabro do candidato Vital. Mas a verdade é que face ao evidente insucesso do candidato em fazer o que se lhe pede – disputar votos à esquerda e centrar o debate o mais longe possível de temas incómodos ao Governo – a melhor alternativa disponível é uma campanha corporate, em que desaparece o candidato e se põe em primeira linha a imagem do próprio partido.

Mas atenção: essa campanha corporate implica uma redefinição de estratégia. Já não se trata de conquistar votos a uma esquerda eurocéptica* nem de tentar definir os termos do debate eleitoral: trata-se apenas e tão somente de mobilizar um eleitorado fiel ao Partido Socialista, sensível a temas identitários como “a fronteira da liberdade” ou “a Europa connosco”. Os restantes eleitores sabem bem que essa identificação exclusiva do PS com a construção europeia é largamente mitológica: a integração no Mercado Comum já fazia parte do Programa do PPD ainda o PS verberava a Europa dos mercadores de canhões; o Governo da AD concluiu inúmeros capítulos das negociações de adesão à CEE; o PSD fazia parte do Governo que assinou o Tratado de Adesão; o PSD negociou e aprovou o Tratado da União Europeia; o PSD assegurou a primeira presidência portuguesa do Conselho Europeu; etc.

Ainda assim, não está mal pensado colocar o partido na primeira linha de campanha: numa eleição com um índice de participação previsivelmente baixo, as vitórias não se constroem através de transferência de votos, mas por um diferencial de mobilização do eleitorado fiel.  E muito desse eleitorado fiel responderá ao estímulo identitário que os outdoors lhe oferecem. Mas talvez o PS se venha a arrepender de não ter pensado nesta estratégia corporate antes de escolher Vital Moreira. É que agora faz sentido perguntar: onde estava Vital Moreira quando Portugal pediu a adesão à CEE? E onde estava  ele quando Portugal aderiu à CEE? Adivinharam: num partido que estava contra a adesão de Portugal à CEE.

Não queria estar na pele dos estrategas do PS: não duvido que esta é a melhor estratégia que podem aplicar nas actuais circunstâncias. Mas fazer uma campanha totalmente desfasada das qualidades do candidato que a protagoniza é a melhor receita para um mau resultado.

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* Sejamos justos: uma esquerda que não gosta desta Europa. Mas porventura gostaria de uma Europa mais a Leste .

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Alguém falou de fraude?

20 de Abril de 2009 | Sem categoria

Acho realmente extraordinário este hábito dos candidatos do PS às europeias especularem sobre a candidatura do PSD. Quando não se sabia ainda que Paulo Rangel seria o cabeça de lista, Vital Moreira não hesitava em especular sobre quem seria o seu principal adversário. Saiu-lhe furada a adivinha. Agora é Edite Estrela que aproveita para dar largas à sua indignação sobre o que não passa de uma especulação: qualquer pessoa minimamente versada em política sabe que a elaboração de listas é sempre um processo tenso e que nada é certo até ao processo estar fechado. Seria por isso do mais elementar bom-senso reservar os comentários – se de todo em todo for necessário fazê-los – para depois da apresentação da lista.

Mais extraordinária ainda é a escolha de palavras: ao qualificar de “fraude eleitoral” (que como se sabe, é crime) uma prática – infelizmente corriqueira – a que o Partido Socialista nunca foi estranho, terá Edite Estrela a noção de que está a por em cheque a própria lista em que se candidata? É que se a hipotética renúncia de Teresa Morais e Regina Bastos ao PE constitui fraude eleitoral, o que dizer da situação de Ana Gomes e Elisa Ferreira, que já anunciaram que renunciariam ao PE se fossem eleitas Presidentes de Câmara? Empregando a estrelícia acepção, estaríamos perante uma dupla “fraude” – às europeias e às autárquicas – nada hipotética. Considerando a autoridade de Edite Estrela no que à língua portuguesa concerne, começa a haver aqui matéria para queixa-crime.

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Adenda: Soube agora que, como eu nunca duvidei que sucedesse, Guilherme Silva já desmentiu a notícia que tanto indignou Edite Estrela. Decididamente, a especulação não é o forte dos candidatos socialistas ao PE. Quanto ao anúncio de que, afinal, Elisa Ferreira e Ana Gomes não são candidatas simultaneamente ao PE e a Câmaras Municipais, ainda nada. Mas estou certo que Edite Estrela, agora que viu a luz, não deixará de tomar uma atitude contra esta “fraude eleitoral” do Partido Socialista.

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Vota Durão

5 de Abril de 2009 | Mundo, Política

Tenho dito aqui que as eleições europeias, enquanto eleições de segunda ordem, têm uma dinâmica essencialmente nacional e não europeia. Sublinhei em particular o facto de essas eleições terem um impacto diminuto sobre as escolhas politicas a nível europeu, sobretudo se comparado com o impacto que podem ter no ciclo eleitoral nacional.

Mantenho, naturalmente, o que disse, mas reconheço que há uma excepção: [continuado…]

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Confundir um juízo analítico com um juízo valorativo é isso mesmo: uma confusão. Nunca falei de eleições de segunda, mas sim de eleições de segunda ordem. Ora eleições de segunda ordem podem até muito bem tornar-se em eleições de primeiríssima importância.

Como bem recordou o Diogo, é precisamente essa a minha convicção no que concerne às eleições europeias de 7 de Junho em Portugal. A três meses de eleições legislativas, os seus resultados podem consolidar expectativas – ou alterá-las completamente. Por isso mesmo eu sugeri que Marcelo Rebelo de Sousa fosse o cabeça-de-lista do PSD nestas eleições. E também por isso eu abordei o tema das europeias na presença de Manuela Ferreira Leite, chamando a atenção para o facto de ser esta a ocasião de quebrar o mito* da invencibilidade do Partido Socialista.

A vitória do PS nas europeias não é tão improvável como o Diogo a pinta: não nos esqueçamos que tem sido esse o resultado desde 1994. Mas se tal acontecer, o efeito de consolidação das expectativas de vitória socialista nas legislativas – e a correspondente desmobilização do eleitorado da oposição – será inegável. A consequência política desta situação é de uma clareza cristalina: quem estiver determinado em criar as condições para que José Sócrates seja afastado do poder deverá votar no PSD, já em 7 de Junho.

Posto isto, há ou não há questões de transcendental importância a debater sobre a Europa? Claro que há.  Podemos aproveitar as eleições europeias para lançar esse debate? Podemos e devemos**. Não convém é achar que estas eleições terão alguma influência em questões como o tratado de Lisboa, as tropas europeias no Afeganistão, os alargamentos passados e futuros da UE ou os Eurobonds. A desilusão é garantida.

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* Mito alicerçado sobretudo em sondagens, visto que os resultados eleitorais propriamente ditos não têm sido famosos desde Fevereiro de 2005…

** Consta até que há partidos europeus que fazem manifestos eleitorais, o que me deixa sinceramente impressionado. Se os levarem tão a sério quanto costumam levar os programas eleitorais nacionais, estaremos perante uma revolução copérnica de incalculáveis consequências.

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