…e porque à boleia deste manifesto a discussão sobre o TGV regressou à praça pública, permitam-me que volte a sintetizar o meu pensamento sobre o assunto. Desta vez em lista numerada, para facilitar a leitura.
- Portugal tem interesse em entrar nas redes ferroviárias trans-europeias, prioritariamente por causa do transporte de mercadorias. O modo ferroviário de transporte baixa o custo médio das exportações e diversifica face ao modo rodoviário (sujeito a riscos de congestionamento, riscos de bloqueio, bem como ao risco político da taxação ecológica do atravessamento).
- As regiões mais exportadoras do País são simultaneamente as mais próximas da Europa transpirenaica. A ligação às redes transeuropeias deve portanto ser feita prioritariamente a Norte (Porto-Vigo e/ou Aveiro-Salamanca).
- Esta ligação não tem necessariamente de ser feita em alta velocidade (300 km/h). A velocidade elevada (200-250 km/h) chega perfeitamente. O que é fundamental é que esteja em bitola europeia, de modo a evitar rupturas de carga gravosas para a competitividade do modo ferroviário.
- Existe uma mega-região Lisboa-Corunha, política e economicamente dominada por Portugal. O seu desenvolvimento económico é fundamental para a viabilidade a longo prazo do país. Ora esta mega-região não está servida por uma infra-estrutura ferroviária eficaz: a linha Lisboa-Porto está velha e congestionada, a ligação Porto-Galiza é praticamente inexistente. Faz por isso sentido, quer do ponto de vista geoeconómico quer do ponto de vista geopolítico, investir numa ligação de alta velocidade entre os principais pólos da mega-região ibero-atlântica.
- O reforço da integração da mega-região ibero-atlântica deve ser assumido como um objectivo político nacional, e deve determinar a prioridade à ligação Lisboa-Corunha sobre a ligação Lisboa-Madrid, que liga duas mega-regiões diferentes, não assegura a auto-sustentabilidade financeira, e se integra no objectivo nacional espanhol de criar uma rede de transportes ibérica centralizada em Madrid.
- Em todo o caso, a situação económica do País no momento presente, nomeadamente o endividamento externo e o desequilíbrio da balança de pagamentos, deve levar a reflectir muitíssimo bem sobre a oportunidade de qualquer um dos investimentos acima referidos. No momento em que houver disponibilidade financeira para avançar com todo ou parte do programa, deve ser tomada em consideração a ordem de prioridades acima esquissada.
O Partido Socialista decidiu esconder Vital Moreira da sua campanha, e espalhar uma segunda vaga de cartazes em que se intitula o partido da Europa. Em reacção a este gesto
- os não-europeístas consequentes votarão contra o PS: afinal, ele pretende representar tudo aquilo que eles combatem.
- os europeístas consequentes votarão contra o PS: afinal, não há nada mais contrário ao espírito europeu do que transformá-lo em bandeira partidária.
Sobram os que se estão marimbando para a Europa. Esses, naturalmente, abster-se-ão.

Tenho dito aqui que as eleições europeias, enquanto eleições de segunda ordem, têm uma dinâmica essencialmente nacional e não europeia. Sublinhei em particular o facto de essas eleições terem um impacto diminuto sobre as escolhas politicas a nível europeu, sobretudo se comparado com o impacto que podem ter no ciclo eleitoral nacional.
Mantenho, naturalmente, o que disse, mas reconheço que há uma excepção: [continuado…]

Confundir um juízo analítico com um juízo valorativo é isso mesmo: uma confusão. Nunca falei de eleições de segunda, mas sim de eleições de segunda ordem. Ora eleições de segunda ordem podem até muito bem tornar-se em eleições de primeiríssima importância.
Como bem recordou o Diogo, é precisamente essa a minha convicção no que concerne às eleições europeias de 7 de Junho em Portugal. A três meses de eleições legislativas, os seus resultados podem consolidar expectativas – ou alterá-las completamente. Por isso mesmo eu sugeri que Marcelo Rebelo de Sousa fosse o cabeça-de-lista do PSD nestas eleições. E também por isso eu abordei o tema das europeias na presença de Manuela Ferreira Leite, chamando a atenção para o facto de ser esta a ocasião de quebrar o mito* da invencibilidade do Partido Socialista.
A vitória do PS nas europeias não é tão improvável como o Diogo a pinta: não nos esqueçamos que tem sido esse o resultado desde 1994. Mas se tal acontecer, o efeito de consolidação das expectativas de vitória socialista nas legislativas – e a correspondente desmobilização do eleitorado da oposição – será inegável. A consequência política desta situação é de uma clareza cristalina: quem estiver determinado em criar as condições para que José Sócrates seja afastado do poder deverá votar no PSD, já em 7 de Junho.
Posto isto, há ou não há questões de transcendental importância a debater sobre a Europa? Claro que há. Podemos aproveitar as eleições europeias para lançar esse debate? Podemos e devemos**. Não convém é achar que estas eleições terão alguma influência em questões como o tratado de Lisboa, as tropas europeias no Afeganistão, os alargamentos passados e futuros da UE ou os Eurobonds. A desilusão é garantida.
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* Mito alicerçado sobretudo em sondagens, visto que os resultados eleitorais propriamente ditos não têm sido famosos desde Fevereiro de 2005…
** Consta até que há partidos europeus que fazem manifestos eleitorais, o que me deixa sinceramente impressionado. Se os levarem tão a sério quanto costumam levar os programas eleitorais nacionais, estaremos perante uma revolução copérnica de incalculáveis consequências.