Artigos do tema investimento

Arrumar a casa (2)

30 de Setembro de 2009 | 31 da Armada

Enquanto a despesa corrente aumentava mais do que a média, o investimento da Câmara Municipal de Lisboa caiu para metade entre 2007 e 2008. Obrigado, António Costa.

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Regressada da Galiza, eis o testemunho de Ana Vidal:

 

numa medida que me parece eficaz e inteligente, o governo de Zapatero atribuíu uma verba aos poderes locais - a cumprir num prazo de seis meses - para ser aplicada em melhoramentos locais e destinada a combater o desemprego por todo o país: pavimentos, saneamento básico, recuperação de fachadas, etc (...) são criados postos de trabalho localmente (a prazo, é certo, mas é melhor do que nada), e não na concentração geográfica de uma ou duas grandes obras nacionais. Há ideias que vale a pena copiar.

 

Alguém adivinha porque é que esta ideia não foi aplicada em Portugal? Uma pista: mais de metade das Câmaras Municipais são do PSD e há eleições autárquicas daqui a um mês.

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…e porque à boleia deste manifesto a discussão sobre o TGV regressou à praça pública, permitam-me que volte a sintetizar o meu pensamento sobre o assunto. Desta vez em lista numerada, para facilitar a leitura.

  1. Portugal tem interesse em entrar nas redes ferroviárias trans-europeias, prioritariamente por causa do transporte de mercadorias. O modo ferroviário de transporte baixa o custo médio das exportações e diversifica face ao modo rodoviário (sujeito a riscos de congestionamento, riscos de bloqueio, bem como ao risco político da taxação ecológica do atravessamento).
  2. As regiões mais exportadoras do País são simultaneamente as mais próximas da Europa transpirenaica. A ligação às redes transeuropeias deve portanto ser feita prioritariamente a Norte (Porto-Vigo e/ou Aveiro-Salamanca).
  3. Esta ligação não tem necessariamente de ser feita em alta velocidade (300 km/h). A velocidade elevada (200-250 km/h) chega perfeitamente. O que é fundamental é que esteja em bitola europeia, de modo a evitar rupturas de carga gravosas para a competitividade do modo ferroviário.
  4. Existe uma mega-região Lisboa-Corunha, política e economicamente dominada por Portugal. O seu desenvolvimento económico é fundamental para a viabilidade a longo prazo do país. Ora esta mega-região não está servida por uma infra-estrutura ferroviária eficaz: a linha Lisboa-Porto está velha e congestionada, a ligação Porto-Galiza é praticamente inexistente. Faz por isso sentido, quer do ponto de vista geoeconómico quer do ponto de vista geopolítico, investir numa ligação de alta velocidade entre os principais pólos da mega-região ibero-atlântica.
  5. O reforço da integração da mega-região ibero-atlântica deve ser assumido como um objectivo político nacional, e deve determinar a prioridade à ligação Lisboa-Corunha sobre a ligação Lisboa-Madrid, que liga duas mega-regiões diferentes, não assegura a auto-sustentabilidade financeira, e se integra no objectivo nacional espanhol de criar uma rede de transportes ibérica centralizada em Madrid.
  6. Em todo o caso, a situação económica do País no momento presente, nomeadamente o endividamento externo e o desequilíbrio da balança de pagamentos, deve levar a reflectir muitíssimo bem sobre a oportunidade de qualquer um dos investimentos acima referidos. No momento em que houver disponibilidade financeira para avançar com todo ou parte do programa, deve ser tomada em consideração a ordem de prioridades acima esquissada.

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O Apelo à Reavaliação do Investimento Público fez mossa, não haja dúvida. Não só pelo conteúdo - que não se afasta muito do que a oposição vinha a defender - mas sobretudo pela credibilidade de quem o fez. Nomes como Daniel Bessa e Augusto Mateus, para citar apenas dois, são duas setas apontadas ao coração do governo socialista.

 

Justamente porque o que está em causa é a credibilidade dos promotores do apelo, as reacções socratianas - não digo socráticas porque até agora o grande líder, na sua novel humildade, não piou - foram no sentido de por em causa os mensageiros, mais do que a mensagem. Economistas? Nada disso. Há lá engenheiros e até um que não é licenciado. Pessoas responsáveis? Justamente: esses ex-ministros quando lá estiveram não fizeram nada para resolver os problemas da nação. Pessoas credíveis? Ó meus amigos: uma cambada de consultores subsidio-dependentes que estão já a por-se a jeito para as benesses do novo poder.

 

Estas alegações de grande elegância têm sido rebatidas, e bem rebatidas, por quem de direito. Interessa-me aqui outra perspectiva: e se os críticos do apelo tiverem razão? E se de facto este manifesto for o primeiro sinal de que os ratos estão a abandonar o navio? O que é que isso diz sobre o navio em que se encontram?

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Um negócio excepcional

14 de Junho de 2009 | Economia

A sua família está bastante endividada. Boa casa, bom carro, boas férias, mas cada fim do mês é um suplício. É que você e a sua mulher trazem trezentos e cinquenta contos por mês para casa todos os meses, mas somando as despesas todas, gastam perto de quinhentos. Você bem tenta cortar, mas não consegue. Se não fossem aqueles primos emigrantes na Alemanha que todos os meses lhe enviam oitenta contitos, você já estava falido. Assim, está só a caminho da falência.


Nisto, atravessa-se-lhe pela frente uma crise financeira. Como você é vendedor, as suas comissões começam logo a sofrer. A sua mulher, ao fim de uns meses, é despedida. De trezentos e cinquenta contos, o rendimento familiar passa para duzentos e setenta e cinco. Felizmente, os primos da Alemanha não falham nas remessas (mal sabem eles como você as gasta…) Mesmo assim, a coisa está preta. Cortar nas férias tudo bem. Mas… vender o carro? Impossível, como é que você iria trabalhar? Mudar de casa? Com os preços a virem por aí abaixo não compensaria, e nem pensar em pôr a Cristina a dormir no mesmo quarto que o Daniel: matavam-se! Não: é preciso arranjar outra solução.


Nisto, você tem uma ideia luminosa: e que tal construir uma piscina no jardim? [continuado…]

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Twin imbalances

9 de Maio de 2009 | Mundo

Nestas conferências estive particularmente atento à questão dos desequilíbrios gémeos entre Estados Unidos e China: consumo de um lado, poupança e investimento do outro. Estes desequilíbrios, que se têm vindo a aprofundar nos últimos dez a quinze anos, são não apenas uma das origens mais claras da crise financeira que atravessamos, mas também um dos problemas políticos mais candentes à escala global.

Quando perguntei a Robert Hunter e a Shi Yinhong em que base é que os Estados Unidos e a China poderiam chegar a um acordo para resolver estes desequilíbrios, ambos se enredaram em respostas inócuas e bem-intencionadas. Mas a sensibilidade da questão foi revelada pela reacção forte do russo Yegor Gaidar – que identificou a convertibilidade do yuan como o maior desafio em termos de regulação financeira mundial – e pela reacção epidérmica da indiana Rada Khumar, que nem queria ouvir falar de uma relação privilegiada entre Estados Unidos e China.

Mas foi o brasileiro Alfredo Valladão que, a meu ver, melhor perspectivou os potenciais desenvolvimentos desta questão, já no sábado à tarde. A China, cujo modelo de desenvolvimento passa por investimento intensivo e está completamente virado para a exportação, tem que se preparar para uma nova era de proteccionismo soft de base ambiental da parte dos Estados Unidos. Claro que haverá sempre empresas americanas prontas a vender serviços para adaptar a produção chinesa às regras do jogo obamiano.  Mas essa adaptação implicará também um aumento do consumo interno, um aumento do rendimento das famílias, e uma diversificação das formas de acesso ao rendimento – cada vez menos controladas pelo Partido. E é esse o grande desafio da liderança chinesa – como entrar nesta nova era sem a acompanhar de uma maior abertura política? E como promover a abertura política sem desencadear convulsões sociais imprevisíveis?

Da resposta da China vai depender muito do que serão as próximas décadas ao nível global.

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