...que Manuela Ferreira Leite não gosta dos Espanhóis. Maldición! Para compensar, temos José España España España Sócrates - secundado por Mário iberista Lino - que até quer fazer um TGV só para não desapontar nuestros hermanos.
Lamento, mas as coisas são mesmo como disse Manuela: ao Governo português cabe defender os interesses de Portugal. Se coincidirem com os de Espanha, encantados da vida. Se não coincidirem, amigos como dantes. O estranho é que haja quem ache isto estranho.
Enquanto país, Portugal tem que ter uma estratégia em relação ao futuro. E essa estratégia passa, em primeiro lugar, por uma definição clara da sua relação com a Espanha: ou União Ibérica, ou reforço da independência nacional. A construção do TGV de Madrid para Lisboa, de que hoje tanto se fala, não pode ser desligada dessa estratégia. Para o melhor e para o pior! E o debate sobre a sua construção não deve ser deixada apenas aos engenheiros que a aprovaram, ou aos economistas que agora a vêm reprovar.
Luís Queirós, em O TGV e "A Batalha do Caia". Não tenho andado a dizer outra coisa.
…e porque à boleia deste manifesto a discussão sobre o TGV regressou à praça pública, permitam-me que volte a sintetizar o meu pensamento sobre o assunto. Desta vez em lista numerada, para facilitar a leitura.
- Portugal tem interesse em entrar nas redes ferroviárias trans-europeias, prioritariamente por causa do transporte de mercadorias. O modo ferroviário de transporte baixa o custo médio das exportações e diversifica face ao modo rodoviário (sujeito a riscos de congestionamento, riscos de bloqueio, bem como ao risco político da taxação ecológica do atravessamento).
- As regiões mais exportadoras do País são simultaneamente as mais próximas da Europa transpirenaica. A ligação às redes transeuropeias deve portanto ser feita prioritariamente a Norte (Porto-Vigo e/ou Aveiro-Salamanca).
- Esta ligação não tem necessariamente de ser feita em alta velocidade (300 km/h). A velocidade elevada (200-250 km/h) chega perfeitamente. O que é fundamental é que esteja em bitola europeia, de modo a evitar rupturas de carga gravosas para a competitividade do modo ferroviário.
- Existe uma mega-região Lisboa-Corunha, política e economicamente dominada por Portugal. O seu desenvolvimento económico é fundamental para a viabilidade a longo prazo do país. Ora esta mega-região não está servida por uma infra-estrutura ferroviária eficaz: a linha Lisboa-Porto está velha e congestionada, a ligação Porto-Galiza é praticamente inexistente. Faz por isso sentido, quer do ponto de vista geoeconómico quer do ponto de vista geopolítico, investir numa ligação de alta velocidade entre os principais pólos da mega-região ibero-atlântica.
- O reforço da integração da mega-região ibero-atlântica deve ser assumido como um objectivo político nacional, e deve determinar a prioridade à ligação Lisboa-Corunha sobre a ligação Lisboa-Madrid, que liga duas mega-regiões diferentes, não assegura a auto-sustentabilidade financeira, e se integra no objectivo nacional espanhol de criar uma rede de transportes ibérica centralizada em Madrid.
- Em todo o caso, a situação económica do País no momento presente, nomeadamente o endividamento externo e o desequilíbrio da balança de pagamentos, deve levar a reflectir muitíssimo bem sobre a oportunidade de qualquer um dos investimentos acima referidos. No momento em que houver disponibilidade financeira para avançar com todo ou parte do programa, deve ser tomada em consideração a ordem de prioridades acima esquissada.
Quando o PSD, na noite das europeias, explicou que face aos resultados e à proximidade das legislativas, o Governo não tinha condições políticas para avançar com um projecto da dimensão do TGV, o que para aí foi. Que era a suspensão da democracia, que era o lay-off governativo. Não passaram quinze dias e o Governo fez aquilo que tão estridentemente negou. Está a democracia suspensa? Está o governo despedido? Não. Simplesmente meteu a marcha atrás. É o que acontece quando já não há como andar para a frente.
Conhece este negócio? Não? Então troque pequena empresa por Estado Português, Banco da Cidade por Citigroup e acrescente uns zeros às quantias referidas, e passa a conhecer. Sim, este é o negócio “ruinoso” que Manuela Ferreira Leite executou em 2003. Um negócio que baixou o défice em 2%, garantiu que Portugal não perdesse fundos comunitários, e transformou em dinheiro dívidas que se estavam a arrastar nas Finanças há anos e anos.
E este negócio? Não conhece? Tem a certeza? Então troque família por Portugal, salários por receita fiscal, remessas dos primos por fundos comunitários e piscina por TGV. Vai ver que é um negócio “excepcionalmente” parecido com o que o Governo quer fazer a três meses de eleições.
Conclusão: mais vale ser arruinado por Ferreira Leite do que salvo da crise por Sócrates.
Não posso deixar de concordar com o Paulo Gorjão: o timing do debate parlamentar que o PSD agendou sobre o TGV não foi o melhor do ponto de vista da agenda política, pelas exactas razões que o Paulo aponta. Admito, porém, que elementos de que nem eu nem o Paulo dispomos justifiquem esta opção do grupo parlamentar.
Questão diversa é saber se o PSD deve participar no debate sobre os traçados propostos, ou antes entrincheirar-se numa oposição total ao projecto. Do meu ponto de vista, o PSD não deve assumir uma posição de rejeição pura e simples do TGV – até porque há que distinguir a ligação Lisboa-Porto-Vigo, que tudo indica ser viável e útil ao País, da ligação Lisboa-Madrid, que está votada à subsídio-dependência. Aquilo que o PSD deve sempre salvaguardar nesta e noutras matérias é que não se avance sem que esteja garantida a pertinência do projecto e a capacidade de o financiar de forma sustentável.
Por isso mesmo, penso que não é inútil contestar a opção governamental por um traçado irracional da linha Porto-Lisboa, que além de ficar muitíssimo mais caro do que a passagem pela margem sul do Tejo, impede uma correcta articulação entre o futuro aeroporto de Alcochete e a rede ferroviária – questão para a qual já havia chamado a atenção aqui. Descontando o timing, estou em total concordância com a posição assumida por Paulo Rangel nesta matéria.