O clube do elogio mútuo que há muito se instalou na blogosfera mais conservadora reagiu com veemência a este post do António Nogueira Leite. Mas expliquem-me lá uma coisa: ele diz alguma coisa que não seja verdade...? Logo vi.
20 de Outubro de 2009 | PSD
Com um historial de três eleições directas, o PSD tem já uma experiência significativa relativamente aos efeitos da mais significativa alteração estatutária introduzida em 2006: é tempo de fazer um primeiro balanço da sua aplicação e a avançar para uma segunda geração de eleições directas. [continuado…]
Interessante, o rescaldo eleitoral de Pedro Picoito no Jamais. Não obstante algumas imprecisões de pormenor (sondagens à volta dos 20% quando MFL conquistou a liderança? not quite) e os inevitáveis, mas não menos dispensáveis remoques que deixa no ar, subscrevo o essencial da sua análise. A verdade é que Picoito acerta, tanto na leitura dos resultados como na análise dos erros que levaram a que o PSD desperdiçasse esta oportunidade de alterar o rumo da política portuguesa. Um ponto de partida muito válido para a reflexão que o PSD terá de fazer sobre o seu futuro.
Exactamente três meses antes das eleições legislativas, escrevi isto no Expresso:
(...) Com José Sócrates, o PS evoluiu de partido-âncora da esquerda para partido-charneira entre uma esquerda radical em forte crescimento e um centro-direita de regresso ao seu nível eleitoral habitual. Essa mutação tornou possível o PS dominador de 2005, mas originou um desenraizamento eleitoral que se está a reflectir, já em 2009, numa considerável quebra do apoio popular aos socialistas. A posição de charneira teve também o efeito de transportar para dentro do partido as grandes clivagens do sistema político português, elevando em muito os riscos de cisão. O centro do sistema partidário português encontra-se portanto ocupado por um partido eleitoralmente enfraquecido, politicamente dividido e organicamente instável. Se porventura ele vier a ser de novo o partido mais votado, iniciar-se-á o ciclo político mais turbulento que Portugal conheceu desde a década de 70. Definitivamente, a governabilidade já não é atributo que o PS possa reivindicar para si.
Chegados ao último dia de campanha eleitoral, o que resta desta análise?
- O PS evoluiu de partido-âncora da esquerda para partido-charneira: confere. O Partido Socialista está claramente a fazer campanha em duas frentes, e em qualquer dos cenários eleitorais expectáveis (incluindo a derrota) encontrar-se-á em posição pivotal no próximo Parlamento.
- Essa mutação originou um desenraizamento eleitoral que se está a reflectir numa considerável quebra do apoio popular: confere. Nenhuma sondagem coloca o PS a menos de 5% do nível que atingiu em 2005.
- O centro do sistema partidário português encontra-se ocupado por um partido eleitoralmente enfraquecido, politicamente dividido e organicamente instável: apesar de se ter notado uma série de movimentações no sentido de encontrar soluções alternativas a Sócrates no imediato pós-europeias, a verdade é que o ainda Primeiro-ministro soube utilizar a dinâmica de campanha para travar as forças centrífugas e recriar uma sensação de união dentro do PS. Mas as divisões poderão ressurgir no período pós-eleitoral, quer em caso de derrota, quer em caso de vitória curta. Será esse o momento de aferir se este ponto confere.
- Se porventura o PS vier a ser de novo o partido mais votado, iniciar-se-á o ciclo político mais turbulento que Portugal conheceu desde a década de 70: esperemos não ter de vir a conferir. Duas das condições que me levaram a fazer esta predição - divisão estratégica interna, desgaste da liderança - permanecem. A terceira - dificuldade em fazer coligações e entendimentos - parece mais em aberto, atendendo ao comportamento dúbio do Bloco de Esquerda relativamente à possibilidade de um entendimento pós-eleitoral com o PS de José Sócrates.
- A governabilidade já não é atributo que o PS possa reivindicar para si: confere. Em qualquer cenário de derrota do PS este retém a capacidade de bloquear a governação, mas nenhum cenário de vitória lhe permite assegurar um governo estável. Votar PS não tem portanto interesse algum do estrito ponto de vista da garantia da governabilidade.
Para além do debate entre o Rodrigo Moita de Deus e a Marta Rebelo ontem à noite, a TVI24 transmitiu também um debate entre os candidatos à Câmara Municipal de Oeiras. Isaltino de Morais esteve como de costume, mas mais: mais histriónico, mais condescendente, mais prepotente. Inovadora foi a defesa que esboçou do seu mandato: "Ah e tal aumentámos a execução orçamental em 70 milhões de euros." Mas onde foram parar os milhões? Ao prolongamento do SATU? Aos centros de saúde por construir? A inexistentes novos 10 000 lugares de estacionamento? Ao metro de superfície entre Algés e Alfragide? Ao Biopark, ao Parque dos Oceanos, à 2ª fase do Parque dos Poetas? Mistério.
Marcos Perestrello apresentou-se à imagem da escola socrática: tudo na forma, nada no conteúdo. Interessante notar que os projectos que anunciou para a CMO são todos competência da Administração Central: basta o PS perder as eleições legislativas para ficar sem programa. O seu momento mais feliz foi quando repudiou com veemência a abordagem de Isabel Meirelles aos problemas judiciais de Isaltino para retomar exactamente a mesma ideia mais à frente, não sem antes namorar o adversário. Sócrates deve ter ficado orgulhoso.
Isabel Meirelles, justamente. A novata. A advogada que nunca fez política, nunca se sentou num Parlamento, nunca afrontou a condescendência de senhores feudais no seu reduto. Notou-se que lhe faltava a ronha assassina que se recomenda para lidar com tais opositores. Mas não deixou de ser a única candidata que verdadeiramente incomodou Isaltino. E não foi só por ter reconhecido sem rebuço a imprudência que seria entregar Oeiras a um candidato pendente de recurso. Foi também porque soube falar da Oeiras real, aquela que não está em maquettes nem em animações 3D e que continua à espera que os benefícios de viver num concelho-modelo lhe batam à porta.
Também lá estiveram Francisco Silva e Amílcar Campos, do BE e da CDU respectivamente. Amílcar fez uma intervenção ponderada sobre transportes, e nada mais se reteve do que disse. Francisco explicou que era a única oposição a Isaltino, mas não teve arte para o demonstrar. Terá sido o fatinho sem gravata à la Novas Fronteiras? notava-se que não estava no seu habitat natural. Conselho: se não pode ir vestido à bloquista para a televisão, experimente uma camisa aberta à Moita de Deus. Pode ser marialva, mas tira as inibições.